Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Maneco chapeleiro


imagem de queronomeucloset
Dizem por aí que Maneco anda usando os chapéus que fabrica antes de entregar ao freguês. Como é um dono da  chapeleira e muito bom chapeleiro, muita gente fica na dúvida se ele faz um modelo e usa como amostra ou se dá uma voltinha com o chapéu e depois vende.
De tanto ouvir comentários passamos a observar seu comportamento. Zé Grilo encomendou um modelo panamá marrom escuro e contou para todo mundo que iria à festa da rapadura batida de chapéu novo.
Ontem, Maneco esteve aqui na casa da Vovó. Entrou e logo colocou seu chapéu na chapeleira. Nós que não somos bobos, tratamos de examinar o trem. Para nossa surpresa era o chapéu modelo panamá marrom escuro. Será o que Zé Grilo encomendou? Logo pensamos. O jeito foi botar a cabeça para funcionar.
Tonico Manga tinha vindo  passar o final de semana com Zefa. Ele é afilhado da afilhada dela. Um meninote muito travesso. Lá pelas bandas do Capão Redondo onde ele mora, a fama de Maneco já havia chegado e ele ficou sabendo por nós da encomenda de Zé Grilo. Idéias não faltaram...
Tonico sugeriu que jogássemos um pouco de mijo de água na aba, porque quando Zé Grilo estivesse usando seu novo chapéu, daria para saber se era o mesmo que Maneco estava usando pelo cheiro. O cheiro ia ficar forte, mas Zé Grilo é tão entusiasmado e distraído que provavelmente nem perceberia ao receber sua encomenda.
Dito e feito. Distraíram o Maneco e levaram o chapéu até o estábulo. Lá estava a égua Rinchadinha, que não demorou para fazer o serviço... No sol quente o panamá secou e logo voltou para o lugar. 
Ao ir embora, depois de muito conversar com Vovó, Maneco nem sentiu o cheiro do mijo, pois o cigarro de palha que tinha na boca cheirava mais forte.
No dia seguinte, Zé Grilo aparece todo saliente rodeando as barracas na praça. A banda tocava e o cheiro dos cavalos atrelados nos quatro cantos do lugar enganava bem o cheiro de seu chapéu. No meio da prosa eis que chega o Tonico atravessando a conversa de gente grande e exclama:
- Esse lugar aqui tem cheiro de mijo de égua!
Todos param, inspiram e concordam. Alguns soltam piadinhas. Tonico pára e olha para Zé Grilo. Aproxima-se e cheira seu chapéu.
- Chapéu novo?
- É! Encomendei e paguei caro pro seu Maneco lá na chapelaria.
- Ah, sei. Então o mijo deve ser da Rinchadinha... Seu maneco foi lá na chácara ontem com um chapéu igual a esse e ele caiu no mijo da égua...
Na simplicidade de um bom caipira, Zé Grilo disse:
- O que não tem remédio, remediado está!

4 comentários:

She disse...

Mais um conto delicioso que você escreve com mensagens entrelinhas que eu AMO. Show! ;)
Beijo, beijo
She

✿ chica disse...

rsssssssss..Esses causos de pessoas simplórias, sem maldade. Lindo! Divertido! beijos,chica

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Muito interessante este teu conto, Anabela. Casos de gente simples e boa
que não vê malícia em nada. Cansei de ver casos assim, na aldeia onde nasci e morei até casa; gente do campo que na sua simplicidade era feliz e sem maldades. Claro, havia excepções, mas no geral era tudo gente boa e amiga de todos os vizinhos, coisa que não se vê nas grandes cidades. Um beijo amiga e obrigada por este descontraído momento. Fica bem!
Emília

Imaginário disse...

Lindo, e eu não tenho dúvida: remediado está.
Grande abraço de saudade.
Cumprida a travessia do mestrado, estou de volta.
Gilson.