Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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quinta-feira, 15 de março de 2012

O frango do pescoço pelado

imagem de  vovogansa  
Nunca vi tamanha maldade como o que aconteceu hoje aqui na casa da Vovó.
No galinheiro, cada galinha tem um dono, o galo é do terreiro e os franguinhos Vovó separa para o almoço de domingo. A cada semana vai uns dois para a panela.
Bia mora na cidade e quase não vem ver sua galinha. Ela chocou onze ovos e nasceu só um franguinho de do pescoço pelado. As franguinhas já foram presas no galinheiro e o frango está quase um galo. Como ela veio passar o final semana, Vovó resolveu abater o frango do pescoço pelado para ela comer. 
Bia não queria. Foi só Vovó pegar a faca e o prato que ela correu para o quarto, deitou na cama e começou a chorar.
Vovó não teve piedade. Ficamos todos olhando ... Ela cortou o pescoço do frango com tanta força que ele acabou decepado. Deitou o  coitado com o pescoço no prato cheio de vinagre para preparar o sangue do molho pardo.
De repente, o frango ficou de pé e saiu cambaleando quintal a fora. Talvez ele quisesse dizer que não queria ser comido, mas todos levamos um susto e Vovó disse que era culpa da Bia, pois quem fica com pena da criação na hora do abate, acaba fazendo com que ela demore a morrer.
Só sei que depois do susto ninguém quis comer do frango. Zefa teve que fritar ovos para toda a meninada...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Aniversário da vovó N


Ontem foi aniversário de uma das avós que me inspiraram a abrir esse blog. Gostaria de estar postando aqui uma foto dela, da festinha e contar o seu nome. Mas ... ela é muito reservada e me proibiu de revelar a sua intimidade, que eu chamo mesmo é de simplicidade. E como neta ( emprestada, pois as minhas já  foram morar com "papai do céu" ) muito obediente vou mostrar só o bolo com as velinhas acesas, prontas para serem assopradas, no escuro e sem muita cantoria de emenda ...
Parabéns vovó N! Muitos anos de vida, paz e saúde.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Inspiração para fazer arte


Todos que entram no quarto da Vovó logo observam os quadros luminosos com imagens de seus santos preferidos para pedir intercessão.Há também um velho rádio de madeira usado para escutar missas, bençãos e orações, que ela liga sempre às seis horas para rezar com o locutor a Ave-Maria.
De tanto chamar a atenção pela beleza da luminosidade colorida, os quadros religiosos serviram de inspiração para uma arte. Calma! Desta vez não fui eu quem aprontou. Foi o Efigênio, filho adotivo de Vovó, que na realidade também é seu sobrinho, filho de uma irmã da Vovó que sumiu no mundo.
Não conseguindo conter sua curiosidade,  imaginou que ficaria lindo se todos os quadros funcionassem juntos. Imaginou, mas... a casa é antiga, com instalações elétricas precárias, há apenas uma tomada no quarto.
Sem recursos que pudessem resolver o problema e na ansiedade de ver os quadros piscando suas luzes coloridas, retirou os plugues, descascou os fios e fez dois rolos que prendeu em um plugue  e  ligou na tomada .... 
O resultado foi desastroso! Um curto circuito provocou o fogo que queimou os quadros da Vovó. 
Um susto  grande e ela ficou muito triste por perder seus quadros dessa forma. quadros que agora fazem parte do passado, pois iguais aqueles já não se encontra mais.
Efigênio, levou um belo choque e se assustou!
Fico pensando se conseguiu descobrir que para manipular a rede elétrica há necessidade de conhecimentos técnicos e que não se pode deixar dominar pelos impulsos da curiosidade.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A tropa de Tãozinho Dasdor

Hoje Vovó foi conversar na porteira da estrada com o Tãozim de Dasdor, assim conhecido por ter sido casado com uma mulher que se chamava Maria das Dores e que o povo daqui chamava de Dasdor.
Ele sempre fica esperando a tropa que vem da Fazenda Três Bicas. Todo sábado os burros cargueiros chegam trazendo queijos, doces, carnes e outras coisas que ainda são produzidas por lá.
Tãozim de Dasdor já foi tropeiro nos tempos em que as tropas andavam longe. Vendo a tropa passar ele mata a saudade e chega a chorar quando houve os sinos dos burros de carga.
Enquanto espera, fica contando histórias das viagens que fez. Casos de burros empacados, pontes caídas, donzelas para quem atirava flores, comidas, bebedeiras e até encontro com onças ...
Disse que eles se levantavam de madrugada e uns iam juntar a tropa, enquanto outros faziam o café e a comida. Conta também que nem sempre encontravam pousos e algumas pousadas cobravam caro. Muitas vezes pela falta de dinheiro tinham que dormir ao relento, exigindo sacrifícios de se revezarem para proteger a tropa de ladrões e onças. Para as onças a solução era uma fogueira bem alta!
A tropa de Tãozim hoje, é uma tropa de histórias, que ele guarda na memória e não se cansa de contar, enquanto pica o fumo de rolo com um canivete afiado e enrola um cigarro de palha do qual sopra uma fumaça malcheirosa que impregna-lhe a roupa e o chapéu.
Aos 82 anos de vida, dos quais 65 viajou pelo sertão guiando cargas, passa os dias tentando reviver um mundo que não conseguiu esquecer.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Nhô Bento

Fonte: chinelo.

Vovó muitas vezes viaja para visitar uns parentes que ela tem lá na Laje dos Bentos. Eles são uma gente muita engraçada. Moram numa casa de fazenda velha e não se importam se ela está caindo aos pedaços. Acham que a vida é assim mesmo e o melhor é guardar o dinheiro debaixo do colchão para o caso de alguma necessidade.
Ela chegou de lá ontem a tarde e hoje de manhã já nos contou uma das aventuras do Nhô. Ele é seu irmão mais velho, já está com as vistas cansadas e anda contando os passos.  Disse que nos últimos tempos está com mania de economizar lenha e controla a quantidade de comida que a mulher faz.
Vovó ficou sabendo que no mês passado ele viajou numa romaria para pagar uma promessa. Dizem que lá pelas tantas da madrugada ele queria urinar e pediu ao motorista para parar o ônibus na estrada.
Nhô desceu do carro meio sonolento e nem percebeu que estava com calçado em apenas um dos pés. Fez suas necessidades e voltou para o lugar. Quando o motorista arrancou o ônibus, Nhô começou a gritar:
- Pára aí homi! Minha precata ficou lá no apeio ...
Voltaram para trás e ao se aproximarem do local avistaram um andarilho com uma precata na mão. Nhô foi logo dizendo:
- Se ôce acha que vai ficar com minha precata, tá muito engando. Passa ela pra cá!
O homem que nada entendeu, saiu em disparada. Assustado, o motorista resolveu que seguiria viagem sem Nhô recuperar seu calçado. 
Quando o dia amanheceu e ao destino se chegou, todos desceram e seguiram para os festejos.
 Nhô, muito contrariado, decidiu comprar calçados novos após a tentativa de andar descalço por algumas horas.  
O dia se foi e no retorno outra viagem noite a dentro. Pela manhã chegaram em casa. Depois de esvaziado o ônibus o motorista resolveu fazer uma revista geral para ver se os passageiros tinham esquecido algum pertence. E ... lá estava ela! Bem debaixo do banco, presa no pedal de descanso para os pés. A precata de Nhô Bento!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dia de eleição


O sol ainda nem mostrava os primeiros raios e já podia-se ouvir vozes de quem passava na estrada rumo à cidade. Hoje é dia de festa, sem música e comida gostosa, sem convidados e com muitos obrigados. Vem gente de toda a redondeza, alguns insatisfeitos, outros orgulhosos, esbanjando vaidade no cheiro do perfume, na  bela roupa de domingo... É dia de rever os parentes, de encontrar os amigos, de saber da vida das comadres e dos compadres, de contar as novidades lá roça e de conhecer as mudanças ocorridas na cidade.
Os adultos aqui da chácara  levantaram-se bem cedo e foram se juntar ao povo da cidade. É dia de eleição. Vão escolher o novo prefeito e uma meia dúzia de vereadores para tomar conta da cidade. Tem gente que diz que político é tudo farinha do mesmo saco, eu não sei se é bem assim, porque falam isso mas vivem defendendo cada um o seu candidato.
Vovó, pela idade, já não precisa mais votar, porém faz questão de comparecer e se orgulha ao contar que deu seu voto para os Lana. Lana Avô é candidato a prefeito; Lana Filho e Lana Neto querem ser vereadores de novo!..   
A novidade desse ano é uma candidata apoiada pelos Faria, uma tal de Donana Pimenta, que  o povo daqui não conhece, mas que deve ser eleita por ter apoio dos Faria, gente de confiança para a  maioria da população.
Passamos a manhã no portão da chácara observando o movimento.Às vezes alguém parava e perguntava por vovó, como ela não estava nos pediam um  copo d’água e seguiam em frente. Até que apareceu tia Ana, nossa tia avó, com sua saia estampada e bem rodada marcando a cintura. Ela sempre é a primeira na fila para votar. Gosta de ir cedo e depois sai visitando os parentes aqui e ali, sempre contando casos e fazendo a gente rir.
Quando ela se esquece de um trecho dos casos, fica toda enrolada, dá uma gargalhada e diz assim:
- ... ah! É o cumé que chama!
E com a chegada dela entramos para dentro de casa, porque ela ia esperar por vovó e pelo almoço que Zefa estava preparando para nós.

sábado, 22 de outubro de 2011

Mamão afogadinho com carne cozida


Hoje o dia amanheceu chuvoso e bastante frio. Claro! Vovó não deixaria de preparar uma de suas receitas que nos ajuda a esquentar o corpo e espantar a friagem que gera os desgastantes resfriados fáceis de surgirem nesses dias de temperaturas inconstantes.
Logo cedo, foi até o pomar e trouxe uns mamões bem verdinhos. O prato do dia vai ser mamão afogadinho com carne cozida. Que delícia! Acompanhado de angu bem cremoso, feito com fubá de moinho d'água, feijão e arroz bem temperadinhos. Comida muito simples, mas quando feita com amor vira um manjar ...
Esse prato embora comum aqui em Minas, atrai muita gente sabida para o almoço na casa da vovó, por isso ela cozinha uma porção generosa. 
Quem chegou de mansinho e foi ficando , foi o dona Neném quitandeira. Ela vende umas quitandas muito gostosas todos os sábados, lá no caminho da Mina do Capão Bonito.
Sempre passa por aqui na volta para casa. Hoje estava muito molhada e Zefa emprestou roupas secas para ela. A conversa foi se prolongando até sair o almoço. Coitada! Mora sozinha com uma neta que de tão atrapalhada já não sai de casa. Por isso, tem que vender suas quitandas  para sustentar a menina. Está tão velhinha com os cabelos branquinhos escondidos debaixo daquele lenço estampado que usa na cabeça e ainda tem que trabalhar tanto assim. O pai da menina morreu de bebedeira quando ela ainda era criança e a mãe, que é sua filha, morreu no parto. A pobrezinha só tem a avó e dona Neném vive preocupada com o destino da menina.