Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

Seguidores

Mostrando postagens com marcador Aconteceu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aconteceu. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Mineiros em romaria


Esse relato está baseado no que ouvi contar sobre um casal amigo de vovó. Casos verídicos - registrando memórias.
O casal Ferreira, entre os anos 70 e 80 do século passado, como tantos outros brasileiros foram vítimas da grave crise financeira que atingia os brasileiros.
A senhora Ferreira, sempre muito esperta, começou a pensar num jeito de melhorar o orçamento. Daí, resolveu colocar em prática uma idéia que haviam tido há muitos anos : organizar  caravanas em romaria para festas religiosas.
Naquela época, a maior parte dos moradores da vila eram católicos, quase ninguém possuía automóvel para viagens e grande parte gostava de dar um passeio de vez em quando. Talvez por isso tenha dado tão certo os negócios do casal Ferreira.
A senhora Ferreira era  muito bem relacionada na vizinhança. Conhecida por gostar de ajudar aos pobres e por participar de atividades religiosas na igreja. Então, era só  começar a vender as passagens para uma caravana e logo o grupo de romeiros se formava.
Conta-se, que a primeira dessas caravanas, foi organizada para a festa do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas. Ônibus com lotação completa! O problema foi a falta de experiência do senhor Ferreira que, na hora de alugar o veiculo, buscou o mais barato porque queria ganhar um grande lucro com a venda das passagens ...
Na hora marcada para o grupo embarcar rumo a Congonhas, estacionou no local combinado  um ônibus maravilhoso por fora e horrível por dentro. Desapontados, todos logo  perceberam a falta de conforto. O senhor Ferreira,  ficou muito assustado e envergonhado com a situação...
Dizem que quando o motorista girou a chave, os bancos começaram a tremer e todos tiveram que tampar o nariz de tanta poeira que saia das laterais cheias de furos. Também há quem não se canse de rir do acontecido na volta a Belo Horizonte: dizem que um menino de pele bem escura que estava sentado na última poltrona encontrou um buraco nos fundos do ônibus e para lá logo entrou.
Ficando com medo, começou a gritar pedindo que acendessem a luz. Os outros meninos logo correram para ver o que estava acontecendo e quando olharam para dentro do buraco a única coisa que viram foi o branco dos olhos do menino. E  a partir daí começaram a chamá-lo de Antônio Preto. 
Outra viagem que deu o que comentar foi uma caravana dos Ferreira para Aparecida do Norte. Essa viagem foi muito esperada por todos porque iria passar pelo Rio de Janeiro. Um dia na praia, só quem é mineiro sabe o valor que tem. Não é por acaso que somos alvo de piadas quando o assunto é banho de mar. Sempre se tem uma engraçada história a ser contada.
Naquele tempo, as viagens eram demoradas porque parava-se muito. Não tinha perigo de assalto como hoje. Então a viagem prevista para sete horas de duração, deve ter demorado umas nove.
Enfim, chegaram na paria de Copacabana. Os rapazes, que já viajaram de calção de banho por baixo das calças, desceram correndo do ônibus e foram dar um mergulho. Aí aconteceu a primeira do dia: alguns ficaram com medo de entrar na água que estava na maré alta e outros começaram a provar da água  para ver se realmente era salgada.
Um guarda, percebendo a desorientação do grupo, ordenou ao motorista que estacionasse no Leblon. Para lá seguiram e ali deu-se um festival de acontecimentos. 
O senhor Jacinto e a dona Maria, portugueses e antigos comerciantes na vila, atravessaram a avenida e foram banhar as canelas nas águas do mar. Ficaram horas com as calças suspensas até o joelho e as canelas mergulhadas na água, enquanto observavam ao longe na esperança de ver algum navio igual ao que os trouxeram de Portugal na época da segunda Guerra Mundial.
Dona Rita não se cansava de pular as ondas quebradas. A filha do senhor Geraldo acendeu o cigarro do ladrão que tentava roubar sua máquina fotográfica. O rapaz que viajou de terno, com ele passou o dia na praia debaixo do sol ardente.
Mas o fato mais engraçado foi o ocorrido com o Ari e o Baiano. Eles resolveram nadar e ficaram boa parte do dia dentro da água. De súbito uma onda gigante  os pegou despreparados dando-lhes um belo caldo. Estaria tudo normal se o Baiano não estivesse de óculos dentro do mar. Ele viu que esse havia sido levado pela onda e gritou pedindo ajuda ao Ari. Esse abriu a boca para responder ao companheiro e eis o que lhe acontece: sua dentadura saiu da boca! O saldo foi um óculos e uma dentadura perdidos no mar.
São muitos os casos que se contam sobre as viagens organizadas pelos Ferreira. É raro encontrar na vizinhança uma casa onde pelo menos uma pessoa nunca tenha viajado com eles. Se eles tivessem feito um diário, hoje em idade já avançada, poderiam publicar um livro! 

quinta-feira, 15 de março de 2012

O frango do pescoço pelado

imagem de  vovogansa  
Nunca vi tamanha maldade como o que aconteceu hoje aqui na casa da Vovó.
No galinheiro, cada galinha tem um dono, o galo é do terreiro e os franguinhos Vovó separa para o almoço de domingo. A cada semana vai uns dois para a panela.
Bia mora na cidade e quase não vem ver sua galinha. Ela chocou onze ovos e nasceu só um franguinho de do pescoço pelado. As franguinhas já foram presas no galinheiro e o frango está quase um galo. Como ela veio passar o final semana, Vovó resolveu abater o frango do pescoço pelado para ela comer. 
Bia não queria. Foi só Vovó pegar a faca e o prato que ela correu para o quarto, deitou na cama e começou a chorar.
Vovó não teve piedade. Ficamos todos olhando ... Ela cortou o pescoço do frango com tanta força que ele acabou decepado. Deitou o  coitado com o pescoço no prato cheio de vinagre para preparar o sangue do molho pardo.
De repente, o frango ficou de pé e saiu cambaleando quintal a fora. Talvez ele quisesse dizer que não queria ser comido, mas todos levamos um susto e Vovó disse que era culpa da Bia, pois quem fica com pena da criação na hora do abate, acaba fazendo com que ela demore a morrer.
Só sei que depois do susto ninguém quis comer do frango. Zefa teve que fritar ovos para toda a meninada...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Aniversário da vovó N


Ontem foi aniversário de uma das avós que me inspiraram a abrir esse blog. Gostaria de estar postando aqui uma foto dela, da festinha e contar o seu nome. Mas ... ela é muito reservada e me proibiu de revelar a sua intimidade, que eu chamo mesmo é de simplicidade. E como neta ( emprestada, pois as minhas já  foram morar com "papai do céu" ) muito obediente vou mostrar só o bolo com as velinhas acesas, prontas para serem assopradas, no escuro e sem muita cantoria de emenda ...
Parabéns vovó N! Muitos anos de vida, paz e saúde.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Inspiração para fazer arte


Todos que entram no quarto da Vovó logo observam os quadros luminosos com imagens de seus santos preferidos para pedir intercessão.Há também um velho rádio de madeira usado para escutar missas, bençãos e orações, que ela liga sempre às seis horas para rezar com o locutor a Ave-Maria.
De tanto chamar a atenção pela beleza da luminosidade colorida, os quadros religiosos serviram de inspiração para uma arte. Calma! Desta vez não fui eu quem aprontou. Foi o Efigênio, filho adotivo de Vovó, que na realidade também é seu sobrinho, filho de uma irmã da Vovó que sumiu no mundo.
Não conseguindo conter sua curiosidade,  imaginou que ficaria lindo se todos os quadros funcionassem juntos. Imaginou, mas... a casa é antiga, com instalações elétricas precárias, há apenas uma tomada no quarto.
Sem recursos que pudessem resolver o problema e na ansiedade de ver os quadros piscando suas luzes coloridas, retirou os plugues, descascou os fios e fez dois rolos que prendeu em um plugue  e  ligou na tomada .... 
O resultado foi desastroso! Um curto circuito provocou o fogo que queimou os quadros da Vovó. 
Um susto  grande e ela ficou muito triste por perder seus quadros dessa forma. quadros que agora fazem parte do passado, pois iguais aqueles já não se encontra mais.
Efigênio, levou um belo choque e se assustou!
Fico pensando se conseguiu descobrir que para manipular a rede elétrica há necessidade de conhecimentos técnicos e que não se pode deixar dominar pelos impulsos da curiosidade.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dia de eleição


O sol ainda nem mostrava os primeiros raios e já podia-se ouvir vozes de quem passava na estrada rumo à cidade. Hoje é dia de festa, sem música e comida gostosa, sem convidados e com muitos obrigados. Vem gente de toda a redondeza, alguns insatisfeitos, outros orgulhosos, esbanjando vaidade no cheiro do perfume, na  bela roupa de domingo... É dia de rever os parentes, de encontrar os amigos, de saber da vida das comadres e dos compadres, de contar as novidades lá roça e de conhecer as mudanças ocorridas na cidade.
Os adultos aqui da chácara  levantaram-se bem cedo e foram se juntar ao povo da cidade. É dia de eleição. Vão escolher o novo prefeito e uma meia dúzia de vereadores para tomar conta da cidade. Tem gente que diz que político é tudo farinha do mesmo saco, eu não sei se é bem assim, porque falam isso mas vivem defendendo cada um o seu candidato.
Vovó, pela idade, já não precisa mais votar, porém faz questão de comparecer e se orgulha ao contar que deu seu voto para os Lana. Lana Avô é candidato a prefeito; Lana Filho e Lana Neto querem ser vereadores de novo!..   
A novidade desse ano é uma candidata apoiada pelos Faria, uma tal de Donana Pimenta, que  o povo daqui não conhece, mas que deve ser eleita por ter apoio dos Faria, gente de confiança para a  maioria da população.
Passamos a manhã no portão da chácara observando o movimento.Às vezes alguém parava e perguntava por vovó, como ela não estava nos pediam um  copo d’água e seguiam em frente. Até que apareceu tia Ana, nossa tia avó, com sua saia estampada e bem rodada marcando a cintura. Ela sempre é a primeira na fila para votar. Gosta de ir cedo e depois sai visitando os parentes aqui e ali, sempre contando casos e fazendo a gente rir.
Quando ela se esquece de um trecho dos casos, fica toda enrolada, dá uma gargalhada e diz assim:
- ... ah! É o cumé que chama!
E com a chegada dela entramos para dentro de casa, porque ela ia esperar por vovó e pelo almoço que Zefa estava preparando para nós.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A morte do juiz de Capão Bonito



Chegou correndo e assustado. Seus olhos arregalados não escondiam o pavor que estava sentido. Todos ficamos quietos, calados, olhando fixamente para aquele rosto desfigurado, a espera de uma explicação. Ele não conseguia falar. Estava pálido e suava frio. Foi então que Zefa correu até a cozinha e voltou com com um copo d'água para que ele bebesse. Pegou-o pela mão e o acomodou no banquinho debaixo da janela. Tremia ... aos poucos começou a murmurar umas palavras, mas ninguém conseguiu entender nada.

- O que está acontecendo menino? Perguntou Vovó.
- Morreu alguém? Viu assombração? Continuou perguntando.

Nesse momento fez uma sequência de " em nome do pai ". Todos ficamos olhando assutados com a situação de desespero do primo Jorge. Afinal, ele saiu cedo para jogar bola com uns amigos e volta desse jeito!?

Depois da fase aguda dessa crise de pânico, Jorge contou -nos o que havia acontecido e nem acreditei que pudesse ser verdade uma coisa dessas, mas em todo caso, vou ficar bem caladinha para não dizerem que estou abusando da fraqueza alheia. Assim que puder vou perguntar tudinho ao padre João de Deus.

Jorge disse que quando chegou lá no Capão Bonito encontrou o campo vazio. Caminhou até as casas mais próximas para ver se conseguia ter notícias dos amigos que jogam no time. Tinham marcado o jogo para as 10 horas, faltavam 10 minutos e o campo estava vazio. 

No caminho encontrou Sô Lião, um velho que anda todo o vilarejo apoiado na bengala e que sabe de toda aquela gente do lugar. Foi informado da morte do juiz que ia apitar o jogo. Então deduziu que todos estavam no velório e rumou para o lugar indicado. Lá estavam todos os jogadores, os moradores do lugar e padre João de Deus  que para lá foi afim de encomendar a alma do morto.

Enquanto o padre rezava, as filhas de Maria entoavam cantigos funebres, outros sussuravam a reza do terço e uma grande maioria lamentava aquela morte fazendo o tradicional julgamento das boas e más obras praticadas por aquele homem em vida. Uma espécie de julgamento de Osíris.

O padre rezava e salpicava água benta no corpo estendido na velha padiola. Caixão naquelas bandas é para poucos. Começou a benção pelos pés, que alguns, depois do ocorrido, juram terem visto se mexer quando gotas de água fria neles foram salpicadas pelo sacerdote. E foi distribuindo gotas de água benta corpo acima, até que ... quando chegou a vez do rosto deu a brocha para o sacristão molhar enquanto fazia o sinal da cruz sob a cabeça do defunto.

O sacristão, muito distraído, não tirou o excesso d'água da brocha e quando o padre salpicou a água ... deu um banho de água fria no rosto do morto que se levantou na hora, pois não estava morto, estava desfalecido.

Num instante, saiu o sacristão correndo porta a fora e atrás dele metade dos presentes naquele velório. A outra metade saiu pela janela tal como fez o padre. Na confusão, o morto também se assustou e saiu porta a fora correndo, não sabia  ele, dele mesmo ... espalhou gente para todos os cantos. E foi dessa maneira que primo Jorge chegou aqui na na casa da Vovó com jeito de quem havia visto assombração.
E não é que ele viu!?