Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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sábado, 7 de janeiro de 2012

A tropa de Tãozinho Dasdor

Hoje Vovó foi conversar na porteira da estrada com o Tãozim de Dasdor, assim conhecido por ter sido casado com uma mulher que se chamava Maria das Dores e que o povo daqui chamava de Dasdor.
Ele sempre fica esperando a tropa que vem da Fazenda Três Bicas. Todo sábado os burros cargueiros chegam trazendo queijos, doces, carnes e outras coisas que ainda são produzidas por lá.
Tãozim de Dasdor já foi tropeiro nos tempos em que as tropas andavam longe. Vendo a tropa passar ele mata a saudade e chega a chorar quando houve os sinos dos burros de carga.
Enquanto espera, fica contando histórias das viagens que fez. Casos de burros empacados, pontes caídas, donzelas para quem atirava flores, comidas, bebedeiras e até encontro com onças ...
Disse que eles se levantavam de madrugada e uns iam juntar a tropa, enquanto outros faziam o café e a comida. Conta também que nem sempre encontravam pousos e algumas pousadas cobravam caro. Muitas vezes pela falta de dinheiro tinham que dormir ao relento, exigindo sacrifícios de se revezarem para proteger a tropa de ladrões e onças. Para as onças a solução era uma fogueira bem alta!
A tropa de Tãozim hoje, é uma tropa de histórias, que ele guarda na memória e não se cansa de contar, enquanto pica o fumo de rolo com um canivete afiado e enrola um cigarro de palha do qual sopra uma fumaça malcheirosa que impregna-lhe a roupa e o chapéu.
Aos 82 anos de vida, dos quais 65 viajou pelo sertão guiando cargas, passa os dias tentando reviver um mundo que não conseguiu esquecer.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Nhô Bento

Fonte: chinelo.

Vovó muitas vezes viaja para visitar uns parentes que ela tem lá na Laje dos Bentos. Eles são uma gente muita engraçada. Moram numa casa de fazenda velha e não se importam se ela está caindo aos pedaços. Acham que a vida é assim mesmo e o melhor é guardar o dinheiro debaixo do colchão para o caso de alguma necessidade.
Ela chegou de lá ontem a tarde e hoje de manhã já nos contou uma das aventuras do Nhô. Ele é seu irmão mais velho, já está com as vistas cansadas e anda contando os passos.  Disse que nos últimos tempos está com mania de economizar lenha e controla a quantidade de comida que a mulher faz.
Vovó ficou sabendo que no mês passado ele viajou numa romaria para pagar uma promessa. Dizem que lá pelas tantas da madrugada ele queria urinar e pediu ao motorista para parar o ônibus na estrada.
Nhô desceu do carro meio sonolento e nem percebeu que estava com calçado em apenas um dos pés. Fez suas necessidades e voltou para o lugar. Quando o motorista arrancou o ônibus, Nhô começou a gritar:
- Pára aí homi! Minha precata ficou lá no apeio ...
Voltaram para trás e ao se aproximarem do local avistaram um andarilho com uma precata na mão. Nhô foi logo dizendo:
- Se ôce acha que vai ficar com minha precata, tá muito engando. Passa ela pra cá!
O homem que nada entendeu, saiu em disparada. Assustado, o motorista resolveu que seguiria viagem sem Nhô recuperar seu calçado. 
Quando o dia amanheceu e ao destino se chegou, todos desceram e seguiram para os festejos.
 Nhô, muito contrariado, decidiu comprar calçados novos após a tentativa de andar descalço por algumas horas.  
O dia se foi e no retorno outra viagem noite a dentro. Pela manhã chegaram em casa. Depois de esvaziado o ônibus o motorista resolveu fazer uma revista geral para ver se os passageiros tinham esquecido algum pertence. E ... lá estava ela! Bem debaixo do banco, presa no pedal de descanso para os pés. A precata de Nhô Bento!

sábado, 22 de outubro de 2011

Mamão afogadinho com carne cozida


Hoje o dia amanheceu chuvoso e bastante frio. Claro! Vovó não deixaria de preparar uma de suas receitas que nos ajuda a esquentar o corpo e espantar a friagem que gera os desgastantes resfriados fáceis de surgirem nesses dias de temperaturas inconstantes.
Logo cedo, foi até o pomar e trouxe uns mamões bem verdinhos. O prato do dia vai ser mamão afogadinho com carne cozida. Que delícia! Acompanhado de angu bem cremoso, feito com fubá de moinho d'água, feijão e arroz bem temperadinhos. Comida muito simples, mas quando feita com amor vira um manjar ...
Esse prato embora comum aqui em Minas, atrai muita gente sabida para o almoço na casa da vovó, por isso ela cozinha uma porção generosa. 
Quem chegou de mansinho e foi ficando , foi o dona Neném quitandeira. Ela vende umas quitandas muito gostosas todos os sábados, lá no caminho da Mina do Capão Bonito.
Sempre passa por aqui na volta para casa. Hoje estava muito molhada e Zefa emprestou roupas secas para ela. A conversa foi se prolongando até sair o almoço. Coitada! Mora sozinha com uma neta que de tão atrapalhada já não sai de casa. Por isso, tem que vender suas quitandas  para sustentar a menina. Está tão velhinha com os cabelos branquinhos escondidos debaixo daquele lenço estampado que usa na cabeça e ainda tem que trabalhar tanto assim. O pai da menina morreu de bebedeira quando ela ainda era criança e a mãe, que é sua filha, morreu no parto. A pobrezinha só tem a avó e dona Neném vive preocupada com o destino da menina. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Tia Maria


E assim mais um dia começou...
Eram pouco mais de cinco e Zefa já coava o café. Vovó estava acordada e apoiada no travesseiro sob a cabeceira da cama, recitava o terço em baixo tom pedindo, a Deus proteção para o dia que se iniciava.
O sol  reluzia na janela. É primavera. Os dias agora são mais longos e alegres. Muito sol, flores e pássaros de galho em galho entoam seus cantos.
De repente ouvimos o barulho do portão de entrada se abrindo. Quem poderia ser naquela hora?
Passos leves e um toc-toc na porta ... pronto! Num instante o barulho dos chinelos de Zefa anunciava que havia dado a volta ao redor da casa para atender a porta. Ela bem sabe que abrir a porta da casa nas primeiras horas manhã é coisa que atrapalha quem está dormindo.
- Bom dia Zefa! Esse povo ainda tá durmindo?
Pela fala era Tia Maria. Ela sempre faz isso! Levanta de madrugada e sai para visitar os parentes. Na verdade, nem sei se ela chega a dormir. E se dorme, deve deitar junto com as galinhas, nas primeiras horas do anoitecer!
Foi entrando casa a dentro e direto no quarto da Vovó. Logo falando aquelas coisas que todo mundo sabe que na verdade é para dar um pito, fazer agente sentir vergonha.
Vovó fica muito brava com o jeito dela, mas não consegue demonstrar na hora. Tia Maria é bem mais velha do ela. É a irmã mais velha do meu falecido avô. Cheia de manias e muito, mais muito sistemática. Fica com raiva por qualquer coisa, então, os mais velhos acham que o melhor mesmo é relevar o que ela diz ou faz.
Depois de percorrer todos os quartos e ficar falando que não era preciso levantar por causa dela, seguiu para a cozinha e sentou-se à mesa para tomar o café e prosear. Perguntou a Zefa sobre tudo e todos. Gosta de ter o controle sobre a vida dos parentes.
Aos poucos fomos nos levantando e em pouco tempo todos já estávamos na cozinha escutando suas novidades.
Depois de dar uma volta no quintal, quis algumas mudas de flores do jardim. Sempre leva as mesmas  e não sei porque elas nunca pegam...
De tanto andar pelo quintal, pisou em falso e um de seus chinelos arrebentou a correia. Pensamos que teríamos de emprestá-la um calçado, mas de repente ela abriu a sacola e tirou lá de dentro uma outra sacola com uma bolsinha de tecido estampado. Abriu-a e pegou uma agulha bem grossa e um pedaço de barbante. Ajeitou o barbante na agulha e costurou a correia do chinelo...
Então disse:
- Já são mais de 9 hora e eu tenho que i imbora purque tá ficano tardi!
Despediu de todos, e embora vovó tenha feito o convite para o almoço, ela preferiu ir embora, pois seu dia já estava ganho e era hora de se recolher e descansar.  

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Pica Chão, faz qualquer negócio!



Sempre solitário em cima de seu alazão. Assim vive o caminheiro João da Cruz, mais conhecido como Pica Chão, pelas infinitas horas abrindo picadas no chão do sertão. É o tipo pau para toda obra. Leva recados, mercadorias e  quem quiser subir na sua garupa. Vai a qualquer parte da redondeza e em troca recebe o que o freguês puder pagar. Galinhas, leitões, farinha, dinheiro, ovos, frutas frescas, verduras, roupas usadas, feixe de lenha e assim vai a lista que enche sua bruaca e serve de moeda no comércio que faz por onde passa. Pica Chão, faz qualquer negócio!
Vovó está ansiosa por sua chegada. Ela vai mandar entregar uma daquelas jarras antigas que ela guarda no baú, lá na fazenda Barra Limpa, pelas bandas do Córrego Fundo. Zé do gole está doente e sua mulher, Zefa de Serafina de Zé Gato, precisa dela para facilitar os cuidados com o moribundo que não sai mais da cama. Essa gente joga fora tudo que é antigo e quando precisa ...
Pica Chão vai trazer também uma encomenda para Vovó. Vem lá de São Gonçalo de Cima, da casa de Terezão, primo distante de meu falecido avô. Terezão parece ser apelido de mulher, uma daquelas bem grande e gorda, mas nesse caso não é.  Terezão na verdade é  apelido, pois o nome dele é Arlindo Gonçalves. Dizem que o apelido veio pelo fato de que quando ele se casou fazia questão de ajudar a sua mulher nas tarefas da casa e os outros homens da família achavam um absurdo! Como sua mulher chama-se Tereza, deram a ele esse apelido.
Enquanto esperamos Pica chão chegar, vou aproveitar para dar um jeito de convencer Vovó a me deixar trocar com ele duas galinhas garninzé por um queijo serrano bem grande e um pote de goiabada cascão. Delícia!!!

sábado, 11 de junho de 2011

Festa para Santo Antonio

Imagem  serrolandianoticias
Hoje levantamos mais cedo que o costume. É dia de festa e tínhamos muito trabalho para realizar. Todos os anos, desde que tio Antonio nasceu, Vovó comemora o dia de Santo Antonio. É uma tradição aqui da região. Basta que se tenha alguém na família que se chame Antonio ou Antonia para que haja festa na casa. Dizem que antigamente o nome das crianças era escolhido de acordo com o calendário religioso e como quase todos eram católicos os nomes eram em homenagem aos santos, anjos e datas festivas como por exemplo se nasce no Natal, colacava-se o nome de Natalino(a), na Páscoa; Pascoal ou Pascoalina.
Tio Antonio mandou erguer uma fogueira de seis metros e o mastro que será levantado para a reza está todo enfeitado de papel crepon de várias cores. Bem no alto ficará o estandarte de Santo Antonio, costurado em tecido de saco de linhagem decorado com fuxicos coloridos e muitas fitas. 
Limpamos o quintal com vassouras de alecrim do campo e decoramos com bandeirinhas e balões de papel que dona Zezé nos ensinou a fazer. Está tudo uma beleza só!
Na cozinha Vovó comanda as mulheres que vieram ajudar a fazer os comes e bebes: canjica, quentão, pipoca, caldos, broas, doces em pedaços ...
Vamos ter também um bom arrasta pé. Quem vem tocar é Sô Juca sanfoneiro e Zé Gago do  cavaquinho. Claro! Com certeza Maria Frô tocará o pandeiro, pois ela é muito aparecida e sempre sai por aí atrás dos dois tocadores de moda.
Bom, como eu não quero perder nadica de nada dessa festa, vou parar de escrever e correr para me arrumar. Quero ver quem vai ter coragem de botar o santo de cabeça para baixo no copo d'água ou jogá-lo pela janela. Quem cozinhou ele no feijão eu já sei ... foi Zefa! Ela pensa que ninguém viu, mas eu estava lá na cozinha quando ela olhou para os lados, colocou a imagem dentro da panela e tampou. E sabe pra quê tudo isso? Só para arrumar marido!         

sábado, 14 de maio de 2011

DEUSQUEMQUIS


Imagem de pascom


O sábado está agitado por aqui. A "reza de maio" hoje será na casa da vovó. Uma tradição do tempo que eu ainda nem tinha nascido. Naquela época a maioria do povo era devoto de Nossa Senhora do Rosário e, as rezas eram muito mais animadas. Mesmo assim, Vovó faz questão de manter a tradição e faz tudo para que seja grande a renda dos leilões e que as crianças brilhem na coroação. Ela tem vestido de anjo para quem quiser participar. São muitos ... todos bem branquinhos e bordados, com asa de anjo, tiara e tudo. Eu vou usar o que foi de mamãe.
Quem chegou logo cedo para ajudar foi Rita de Maria Deusquemquis. Ela tem muito jeito para decorar o altar e ajeitar os leilões em embalagens bem bonitas. Rita é filha de Maria, que  é cunhada de tia Terezinha e filha de Deusquemquis.
Deusquequis já morreu há uns vinte anos, mas quem o conheceu não esquece da origem de seu apelido. Seu nome de batismo era Josino da Silveira, mas todos o chamavam de Deusquemquis. Ele era professor da escola rural lá do Alto da Cruz. Dizem que era muito pouco interessado em responder perguntas de seus alunos e quando alguma criança lhe perguntava coisas que ele não queria responder, sempre dizia :
-  Foi Deus quem quis!
E assim passou sua vida, se livrando de muita explicação sobre as coisas que lhe perguntavam. Afinal, se foi Deus quem quis que fosse assim, não adiantava insistir, porque a vontade de Deus é para se obedecer e não para ser discutida. Era uma ordem e ponto final. 
Deusquemquis teve mais de uma dúzia de filhos. As mulheres todas se chamam Maria, Maria de alguma coisa ... E quando lhe perguntavam o motivo de todas terem o mesmo nome ele respondia:
- Foi Deus quem quis.
Por se chamarem Maria, todos os anos de suas vidas acompanham as "rezas de maio"!
Será que é porque Deus quem quis!?

sábado, 2 de abril de 2011

Para quem chegar!



Vovó sabe que final de semana por aqui, vem visita na certa. Por isso, deixa sempre a cozinha abastecida de café, broa, bolos e muitos biscoitos. São tantos biscoitos! Ela tem o costume de guardá-los em latas, dentro de um saco branco bem limpinho. Eu gosto muito do biscoito de rapadura. Ele tem uma cor feia, mas é delicioso de se comer. Tem os de polvilho, de araruta, de fubá, de farinha de trigo e até de inhame.
Todos assados, que é para durar caso não venha gente para comê-los ...
Uma delícia também, são os biscoitos de polvilho fritos que Zefa faz para nós quando não está muito atarefada com os afazeres da casa. Quando chove, vovó faz um manjar chamado "bolinhos de chuva", bem recheado com queijo fresco e depois de fritos ela os passa numa mistura de açúcar refinado com canela. Huuumm! Esse é mesmo dos deuses!!!
Mas para quem chega, a mesa sempre farta é sinal da alegria que vovó sente ao ver todos que vem visitá-la. E  quem será que está chegando? Ouvi um grito lá fora:
- Ô de casa! Tô entrando ...

domingo, 20 de março de 2011

Uma Super-Lua visita a vovó



A visita de hoje, chegou ontem.
Feito deusa, veio toda prateada!
Cheia de brilho e bem norteada.
Era enorme ... igual a ninguém! 
Foi uma Lua diferente de todas.
Uma Super-Lua que vale por dois.
Igual a esta, só passados vinte anos
depois! 

sábado, 12 de março de 2011

Esmola para São José

 Imagem de http://catequesesaojose.blogspot.com/2010_03_01_archive.html

É costume aqui na região, que os membros da irmandade tirem esmolas para a festa do santo. Isso acontece nos dias que antecedem o grande dia festivo, durante a novena. Este mês o santo que reúne o maior número de devotos é São José. Operário, porque trabalhava de carpinteiro e então é rogado pelos trabalhadores; esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, portanto, pai de família exemplar e venerado pelos esposos.
Aqui é mais conhecido como São  José do Barreiro Velho. Conta os antigos, que morava lá Barreiro Velho um homem conhecido como Zeca do Pote, por ser ele um fazedor de potes de barro. Certa época, ele foi acometido de um mal nas pernas, devido aos movimentos constantes de amassar o barro com os pés para fazer suas artes. Pegou um tipo de bexiga que comia-lhe a pele de maneira assustadora.
As pessoas se afastaram dele por causa do mal cheiro nas bexigas, exceto o sacristão, enviado semanalmente pelo padre para ler passagens da Bíblia e entregar-lhe a comunhão.
Foi então que o tal sacristão, cansado de ter que fazer a penitência que lh incumbira o padre, sugeriu ao Zeca do Pote que fizesse uma promessa para o seu santo de devoção. Como não tinha confiança em nenhum santo em especial, o homem resolveu pedir ajuda ao que tinha o mesmo nome que o seu, José.
Batata! Foi rezar e conseguir o milagre. Ficou livre das bexigas e voltou ao trabalho. Uma vez recuperado tratou logo de cumprir a promessa que havia feito. Construiu uma capela em homenagem a São José. A história se espalhou e o povo começou a fazer romarias para lá.
O primeiro nome de devoção do santo foi  São José do Barreiro, porque naquele tempo o arraial chamava-se apenas Barreiro, mas com a descoberta de um novo barreiro pelos fabricantes de objetos de barro, o povo foi logo chamando o lugar de Barreiro Novo e, o local onde está a capela de São José  virou Barreiro Velho.
Então, como eu ia dizendo, hoje vieram tirar as esmolas de São José. Um grupo de mais ou menos umas  trinta pessoas que carregando a imagem do santo e que certamente iria aumentar no percurso. Eles entram nas casas, rezam e recebem as doações dos proprietários. Pode ser dinheiro, prendas para leilão ou quitandas para as barraquinhas. As doações seguem na carroça e o povo a pé, debaixo do sol quente, levantando a poeira vermelha da estrada.
Vovó, como é muito generosa, dá um pouquinho de tudo. Dinheiro, galinhas, ovos, doces e desta vez até um leitão da porca Rosa.  Um daqueles que os arrematadores vão disputar centavo por centavo... 





Obs: O poema é de Zé Laurentino, poeta e cordelista paraibano. A narração é de Rolando Boldrin.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Maria Cheira Pó

UM SÁBADO AZUL, blogagem coletiva proposta http://tinadiassonharerealizar.blogspot.com/

Flick, Renata Sá.
Logo cedo ela surgiu descendo o caminho do curral, com passos largos e cabeça erguida. Trazia debaixo do braço direito uma galinha vistosa e bastante inquieta. No ombro esquerdo tinha dependurada uma capanga grande, com a alça amarrada em nó e bastante empoeirada. Cheia de poeira também estava suas precatas e a barra da saia muito comprida, como só ela gosta de usar. Era Maria cheira pó, chegando para visitar vovó. Estávamos sentados no banco do alpendre. Quando a avistamos vovó logo caminhou para o portão para recebê-la.
- Dia, Teteca!
- Bom dia, Maria! Como vai?
- Eu vou indo. Sabe como é, na nossa idade é uma dor aqui, uma queimação ali e Deus é que dá força pra gente ir vivendo.
- Vamos entrar. Senta e descansa um pouquinho. Quer uma água?
- Aceito uma caneca d'água sim.
Quando Zefa trouxe a água,  Maria percebeu que estava na sala com a galinha debaixo do braço. Meio sem graça, entregou a bichinha para vovó e disse que era um presente. Tirou de dentro da capanga algumas dezenas de ovos azuis, dizendo que juntou para trazer com a galinha e daí, só faltava vovó colocar para chocar.
Essa galinha que bota ovos azuis é rara por aqui, todos nós queríamos ver os ovos e custamos a esperar Maria ir embora. É que vovó não gosta de criança  fuxicando com as visitas e muito menos bisbilhotando o que ela ganha das amigas.
Depois de muito conversar, Maria tomou café com biscoitos e broa. Quando levantou-se para ir embora, antes de se despedir, tirou do bolso da saia uma latinha de pó, abriu, mergulhou as pontas dos dedos e aspirou nariz a dentro. Deu alguns espirros. E nós não conseguimos ficar sem dar umas boas risadas...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Cantoria com o Pau de Angú

Pau de angú.

Hoje a tarde estiveram alguns cantores acompanhando o Pau de Angú. Vovó gosta muito de ouví-los. Eles cantam músicas tão antigas que dá até um nó no coração só de pensar que ela fica triste se lembrando dos tempos em que era jovem.
Pau de Angú é mais velho do que a serra ... Já tem tem os cabelos branquinhos e quase não enxerga, mas ainda toca muito bem sua viola de Queluz, que ele disse ter comprado nessa cidade nos tempos em que era tropeiro. 
Ninguém sabe muito bem como ele aprendeu a tocar tão bem a viola. Os homens que o acompanham são seu filho Zé Mulato, seu neto Joãozinho e seu sobrinho Bimba. Pau de angú ganhou esse apelido porque gostava de amarrar sua rede nos galhos de um jaracarandá roxo, que os antigos daqui usavam para fazer colher de pau para mexer o angú. 
Depois de tanto cantarem para nós e a vizinhança, Zefa serviu o café que vovó mandou preparar, com muitos biscoitos, bolos e feijão com farinha e carne cozida. Prato preferido de Pau de Angú. Ele come e toma o café sem açúcar. Essa é a melhor parte da visita? Para nós é!!! Para os adultos é depois do café, quando começa o arrasta pé ...

sábado, 22 de janeiro de 2011

Dona Mariquinha do Sô Jóvis




Ouvi o barulho da tramela do portão de entrada. Corri e olhei pela janela para ver quem chegava. De longe já avistei aquela saia de chita vermelha com estampas verdes e amarelas, ao lado do homem com seu terno azul celeste e a boina branca. Os dois de pés no chão. Ela ainda usava guarda-sol e luvas de renda.
Eram Sô Jóvis e dona Mariquinha que moram lá no Capão dos Ipês Roxo. Sô Jóvis foi muito amigo de vovô. Por isso, sempre vem visitar vovó e trás com ele a mulher. Eles são bem velhinhos, mas tem uma energia de fazer inveja ... Corri e avisei à Zefa que eles estavam entrando. Ela os convidou para assentar enquanto Renatinha e eu fomos procurar por vovó que estava passando a vista nos trabalhos de capina da horta.
- Dia, Sô Jóvis! Dona Mariquinha, como vai a comadre? Disse vovó ao chegar na sala.
Nós saímos de fininho e fomos para a varanda. Como vovó não gosta de criança na sala ouvindo conversa de gente grande, a gente fica nos arredores para não perder as novidades. Já me disseram que é coisa muito feia, mas eu não ligo, quero mesmo é saber de tudo tintin por tintin! Hoje não teve muito o que se ouvir, além de falarem pouco, os dois só reclamam falta de dinheiro.
Dona Mariquinha trouxe doce de pau de mamão e farinha de goma para a vovó. E como todos que aqui chegam, não foi embora de mãos vazias. Ganhou um dinheirinho para comprar sapatos. Sempre eles pedem dinheiro para comprar sapatos, mas não compram e dizem que guardam tudo debaixo do colchão. Na verdade, eles sempre andaram descalços. Se arrumam todos e saem por aí achando que estão elegantes com aquelas roupas coloridas e sem sapatos. Aqui na região todos já se acostumaram de vê-los daquele geito.  
Zefa serviu um café com biscoitos. Eles tomaram e depois foram embora dizendo que só não esperariam o almoço porque tinham passar na casa de mais dois compadres.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Maria Touca


Hoje Maria Touca veio visitar a vovó logo cedo. Ela mora  na Serra do Bené e vem a pé até o sítio. É muito longe e ela que caminha sempre rápido nem liga se as pernas ficam doloridas. Daqui vai passar em outras casas da redondeza só para tentar vender seus crochês.
Seu nome de batismo é Maria da Conceição, mas todos a conhecem por Maria Touca. O apelido é pelo costume de andar sempre com uma touca cobrindo os  cabelos e as orelhas. Diz que é para não pegar friagem nos ouvidos.
Durante a semana ela tece muitos galinhos bicos de bule e borda panos de prateleira, coisas que sai por aí vendendo e ganhando um dinheirinho para viver. É sozinha na vida. Vovó gosta muito dela e quando ela vem sempre lhe dá algumas coisas para levar. Em retribuição ela sempre trás um presentinho. Desta vez, trouxe um galinho bico de bule muito bonitinho. Já havia dado outros para vovó, mas Zefa sempre se esquece de tirá-los do bule antes de esquentar o café e, quando o fogo está alto acaba queimando o coitadinho.
Desta vez vovó comprou uns panos para forrar a prateleira da cozinha. Eles são  feitos de saco alvejado e decorados com renda de crochê. São muitos simples, mas aqui não se passa sem eles.
Maria Touca contou também as novidades lá da vila. Disse que vai haver leilão na praça da igreja durante a novena de São Sebastião; contou que a mulher do dono da farmácia cortou o cabelo feito homem e que está todo mundo abismado de ver a sua coragem; ainda disse  que os rapazes do time de fora tiveram a coragem de fazer uma galinhada para vender lá no campo, com cinco galinhas que roubaram de dona Mariquinha do Sô Carmelo. É mesmo uma fofoqueira! E eu ouvi tudo isso sem querer, fiquei no quarto da sala enquanto vovó conversava, eu e as outras crianças, brincando, pois vovó não gosta que criança escute conversa de gente grande ...