Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Chá sabugueiro e cama !!!

 
Imagem tirada no ecosanto
 
Primo Zeca está com bolhas d'água no corpo todo. São bem miudinhas mas já percebi que é coisa que pega. Renatinha disse que deve ser catapora, mas vovó não arrisca dizer o que pode ser, porque Zeca não teve febre ainda ... No fundo, acho que ela não quer é nos assustar. Mandou chamar o Batistinha, o moço que cuida da horta e do quintal e pediu a ele para buscar algumas folhas e flores de sabugueiro.
Imagino que ela vai fazer um chá para o coitado do meu primo, pois é para isso que servem as ervas que ela cultiva com tanto cuidado. Esses chás costumam serem amargos e ela nos obriga a tomar uma chaleira inteira ...
Eu não conhecia sabugueiro. Como sou muito curiosa, pedi ao Batistinha para eu ir junto sem que vovó percebesse, porque desde que a Maria Pureza foi picada por uma cascavel e morreu envenenada, os adultos daqui não gostam que entremos no mato cerrado. Se a ordem era buscar folhas no mato, não havia outro recurso a não ser atravessar o pasto e procurar lá na beira da grota. Batistinha disse que a antiga horta ficava lá e muitas ervas que foram plantadas antes de vovó mandar fazer a horta  do quintal  é lá que vamos encontrar. São plantas que viraram árvores.
Calcei um par de botinas velhas que estava no barracão e fui junto para conhecer o pé de sabugueiro. No caminho Batistinha me contou que é uma árvore que dá flores brancas e frutos da cor de jabuticaba. Com as folhas se faz chá para quase tudo, principalmente para por as brotoejas para fora.. É uma planta meio sagrada, pois foi de uma igualzinha a que vimos, que cortaram a madeira para fazer a cruz que Jesus carregou para o calvário.
Assim fiquei sabendo que catapora e brotoeja são parentes. Pela quantidade de sabugueiro que vovó mandou trazer,  todas as crianças da casa terão que beber do chá, para por logo para fora do corpo as cataporas.
Vovó disse que essa doença é contagiosa e se pega muito fácil quando temos contato com alguém infectado. Sei que se eu tiver muita sorte não terei  cataporas, mas de tomar o chá eu não vou conseguir escapar ... Já estão me chamando ... Vai ser chá de sabugueiro e cama!!!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Quando eu era pequena


Quando eu era bem pequena e não tinha idade para frequentar a escola, meu maior sonho era completar a idade que permitiria a meus pais me matricularem numa escola. Eu era louca para frequentar as aulas e sempre ficava no portão de casa nos horários de entrada e saída das crianças do grupo escolar, só para vê-las passar uniformizadas, de pasta e merendeira.
Naquele tempo, a merendeira das meninas era cor de rosa e a dos meninos azul. Lembro-me até hoje da minha, tive uma só! O lanche que ia lá dentro variava muito pouco. Era pão com manteiga e Qsuco de morango, daquele que deixava a língua vermelha de tanto corante. Algumas vezes levava frutas e até pipocas. Na escola só havia merenda gratuita para quem comprovasse ser muito carente. Eles tinham uma ficha que era apresentada à cantineira. Como eram poucos, ela conhecia a todos e nem dava para tentar trocar com eles o lanche que levávamos de casa pelo servido na escola, porque para piorar a situação ela sempre os sentava enfileirados nos bancos da cantina e ficava de olho para eles não deixarem sobras no prato. Na verdade, nunca soube o gosto daquela merenda ...
Havia também a venda de guloseimas, mas eu não ganhava dinheiro para levar. Nesta me dei bem algumas vezes,  quando mamãe colocava na minha lancheira uma maçã bem vermelhinha e grande. Na inocência de criança, eu vendia a maçã a preço de um piriluto Zorro. Minha mãe nunca soube dessa minha burrice!
Mas eu gostava de estudar. Talvez por isso, certa vez quando passamos uma semana na casa de vovó e minhas primas mais velhas já frequentavam a escola, mamãe me autorizou a ir com elas e eu fiquei toda empolgada. Lembro-me que minha tia me deu um caderno e um lápis com borracha na ponta. Achei o máximo!!! Fiquei toda mitida e fui com as primas para a escola.
Como nunca havia entrado numa sala de aula, tratei logo de me fartar em conhecimentos, fazendo tudo que a professora me pedia com tanta rapidez que ela até duvidou de ser a minha aula. Era uma escola rural muito pequena, na verdade com apenas uma sala de aula, mas eu me senti realizada.
Um fato interessante que ocorreu nesse dia foi um touro chamado de Tango, muito bravo, ter corrido atrás da gente na volta para casa. O caminho era uma trilha no meio do pasto. Lembro-me bem do córrego com água bem limpinha que descia ao longo do caminho e adentrava pelo quintal da vovó. Era bem caudaloso e meus tios fizeram ramificações para levar água até a horta. Bem no meio do quintal havia uma minúscula queda d'água que formava um poço onde era lavada a roupa da casa e areadas com cinza e areia as panelas usadas no fogão à lenha. Êta tempo bom que não volta mais! Vovó se foi, o terreno foi vendido e transformado num moderno chacreamento ...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Canjica para espantar o frio !

Para vocês uma dica das vovós de Sabará! Nessa cidade faz muito frio durante a noite e pela manhã. Para espantar o frio as mulheres mantém o costume de ter em casa canjica cozida para ser degustada antes de dormir, misturada ao leite bem quente e açúcar, o mesmo pode ser feito pela manhã. O resultado é uma boa noite de sono e disposição para enfrentar a neblina da manhã a caminho do trabalho ou de outros afazeres.

domingo, 26 de junho de 2011

São João, acende a fogueira no meu coração!


wikipedia
E assim terminou o São João. A noite mais fria do ano tirou meu ânimo de escrever o que aconteceu na casa da vovó e só hoje, dois dias depois me atrevo a contar. Nem a fogueira acesa afastou o vento frio. Acho até que é por isso que se canta aquele verso " São João, acende a fogueira no meu coração". Mas de tão boa que estava a festa, poucos conseguiram arredar os pés do quintal.
Fizemos a brincadeira da faca na bananeira. Só Maria Polidora conseguiu descobrir a letra. Ficou toda contente e achando que é melhor do que as outras moças. Tirou um R. Será R de quê? Ribamar? Rui da Cuia? Ronaldão do Sô Zé Valente? Ninguém sabe quem será laçado. Mas todo mundo já sabe que o nome do coitado começa com R. A brincadeira da faca na bananeira só pode ser feita na noite São João e é assim: as moças compram na feira da cidade uma faca virgem e antes da meia noite procuram uma bananeira sem cacho e fincam a faca no tronco. Deixam lá até passar a meia-noite e depois retiram. Se for dar casamento, no lugar da marca do furo vê-se uma letra, que é a inicial do nome do futuro marido.
Teve também o ato de fé. Quem quiser pode passar descalço à meia-noite sobre as brasas da fogueira, que segundo os mais velhos, não queima os pés. Eu nunca tive coragem, mas há quem teve. Muitos passaram sobre as brasas. Alguns queimaram os pés sim, vovó disse que é por falta de fé! 
No geral a poeira levantou durante o arrasta pé regado a quentão e cachaça, caldos, canjica, doces, pipocas e outras coisas  boas. Tio Joãozinho caprichou na festança, aliás, como faz todos os anos desde que encontrou a bandeira de São João no caminho do açude. De lá para cá nunca mais se atreveu a deixar de festejar o São João e somos nós que aproveitamos ...  

sábado, 11 de junho de 2011

Festa para Santo Antonio

Imagem  serrolandianoticias
Hoje levantamos mais cedo que o costume. É dia de festa e tínhamos muito trabalho para realizar. Todos os anos, desde que tio Antonio nasceu, Vovó comemora o dia de Santo Antonio. É uma tradição aqui da região. Basta que se tenha alguém na família que se chame Antonio ou Antonia para que haja festa na casa. Dizem que antigamente o nome das crianças era escolhido de acordo com o calendário religioso e como quase todos eram católicos os nomes eram em homenagem aos santos, anjos e datas festivas como por exemplo se nasce no Natal, colacava-se o nome de Natalino(a), na Páscoa; Pascoal ou Pascoalina.
Tio Antonio mandou erguer uma fogueira de seis metros e o mastro que será levantado para a reza está todo enfeitado de papel crepon de várias cores. Bem no alto ficará o estandarte de Santo Antonio, costurado em tecido de saco de linhagem decorado com fuxicos coloridos e muitas fitas. 
Limpamos o quintal com vassouras de alecrim do campo e decoramos com bandeirinhas e balões de papel que dona Zezé nos ensinou a fazer. Está tudo uma beleza só!
Na cozinha Vovó comanda as mulheres que vieram ajudar a fazer os comes e bebes: canjica, quentão, pipoca, caldos, broas, doces em pedaços ...
Vamos ter também um bom arrasta pé. Quem vem tocar é Sô Juca sanfoneiro e Zé Gago do  cavaquinho. Claro! Com certeza Maria Frô tocará o pandeiro, pois ela é muito aparecida e sempre sai por aí atrás dos dois tocadores de moda.
Bom, como eu não quero perder nadica de nada dessa festa, vou parar de escrever e correr para me arrumar. Quero ver quem vai ter coragem de botar o santo de cabeça para baixo no copo d'água ou jogá-lo pela janela. Quem cozinhou ele no feijão eu já sei ... foi Zefa! Ela pensa que ninguém viu, mas eu estava lá na cozinha quando ela olhou para os lados, colocou a imagem dentro da panela e tampou. E sabe pra quê tudo isso? Só para arrumar marido!         

sábado, 14 de maio de 2011

DEUSQUEMQUIS


Imagem de pascom


O sábado está agitado por aqui. A "reza de maio" hoje será na casa da vovó. Uma tradição do tempo que eu ainda nem tinha nascido. Naquela época a maioria do povo era devoto de Nossa Senhora do Rosário e, as rezas eram muito mais animadas. Mesmo assim, Vovó faz questão de manter a tradição e faz tudo para que seja grande a renda dos leilões e que as crianças brilhem na coroação. Ela tem vestido de anjo para quem quiser participar. São muitos ... todos bem branquinhos e bordados, com asa de anjo, tiara e tudo. Eu vou usar o que foi de mamãe.
Quem chegou logo cedo para ajudar foi Rita de Maria Deusquemquis. Ela tem muito jeito para decorar o altar e ajeitar os leilões em embalagens bem bonitas. Rita é filha de Maria, que  é cunhada de tia Terezinha e filha de Deusquemquis.
Deusquequis já morreu há uns vinte anos, mas quem o conheceu não esquece da origem de seu apelido. Seu nome de batismo era Josino da Silveira, mas todos o chamavam de Deusquemquis. Ele era professor da escola rural lá do Alto da Cruz. Dizem que era muito pouco interessado em responder perguntas de seus alunos e quando alguma criança lhe perguntava coisas que ele não queria responder, sempre dizia :
-  Foi Deus quem quis!
E assim passou sua vida, se livrando de muita explicação sobre as coisas que lhe perguntavam. Afinal, se foi Deus quem quis que fosse assim, não adiantava insistir, porque a vontade de Deus é para se obedecer e não para ser discutida. Era uma ordem e ponto final. 
Deusquemquis teve mais de uma dúzia de filhos. As mulheres todas se chamam Maria, Maria de alguma coisa ... E quando lhe perguntavam o motivo de todas terem o mesmo nome ele respondia:
- Foi Deus quem quis.
Por se chamarem Maria, todos os anos de suas vidas acompanham as "rezas de maio"!
Será que é porque Deus quem quis!?

terça-feira, 10 de maio de 2011

De onde vem o pó do cafezinho da vovó?



Hoje Milu veio passar o dia aqui na casa da vovó. Ela é tão pequenininha e ao mesmo tempo tão danadinha! Com seus quatro aninhos de vida já consegue fazer perguntas que deixam aos menos avisados sem resposta.
Imagine que logo ela que mora na cidade e só gosta de beber leite achocolatado resolveu pedir à vovó um cafezinho!!! Claro que vovó levou um susto,mas com muita rapidez a vovó passou um café quentinho e lhe deu uma xícara. Um café daqueles bem nato da fazenda. Forte! Que é para ir se acostumando com os hábitos da família. E teve que beber tudo, porque na casa da vovó criança não deve deixar nada no copo ...
Depois do cafezinho, um tanto quanto demorado para ser degustado, veio uma pergunta:
- Vovó, de onde vem o pó que a senhora usa para fazer esse café?
Vovó olhos fixamente para Milu, segurou sua pequena mão e foi levando-a para o quintal. Ela iria conhecer os pés de café que com tanto cuidado vovó mantém sempre pronduzindo grãos.