Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Um segredo de família

Há coisas que nem imaginamos encontrar pelo caminho. Como a carta que vi vovó tirar do baú. Ela guarda uns papeis antigos dentro de uma caixinha de papelão, que na verdade é uma antiga caixa de sabonetes. Muito bonitinha, velha, mas tão limpinha que dá gosto de ver.

Vovó ficou um bom tempo lendo e relendo a carta. Até que não resisti e me aproximei. Pensei que ela iria me mandar sair, mas para a minha surpresa ela me deu a carta para ler. Nem acreditei quando olhei seu braço estendido com a carta na mão, esperando eu pegá-la para ler.

No primeiro momento me chamou a atenção a caligrafia de aparência muito antiga. Antiga e toda certinha! Um capricho só! Depois fui me prendendo à leitura que trazia o relato de um segredo de família que até então eu desconhecia.

" Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1955.

             Minha querida irmã,

            Escrevo-lhe com o coração aflito, pois bem sabes que há dois anos estou sem saber notícias de minhas crianças que contigo deixei enquanto vim tentar refazer minha vida aqui na Capital do país. Espero em Deus que essa carta encontrem todos gozando de muita paz e saúde.

           Sei que somente Deus poderá lhe recompensar pela bondade que tens demonstrado cuidando e criando dos meus filhos. Efigênio, Lia, Cecília e Marília. Quatro pedaços de mim que por força do destino tive que deixar para trás. Fico imaginando como devem estar crescidos e bonitos. Sim, pois tenho confiança nos seus cuidados de mãe para com eles. Ontem foi aniversário de Lia, acho que agora você vai poder deixá-la frequentar a escola  e o catecismo. Ela já tem sete anos, meu Deus!!! Que saudades!

           Sei que você deve estar imaginando como tenho me virado por aqui. Digo-lhe que não se preocupe comigo, já consegui um trabalho honesto e tenho um bom ordenado, estou até pensando em enviar um pouco de dinheiro todo início de mês para ajudar nas despesas com as crianças. Sei que você não precisa disso, mas faço questão de ajudar e assim que puder darei um jeito de buscá-los para viverem comigo.

           Uma novidade que tenho é que me casei novamente. Isso mesmo! Meu novo marido é viúvo e tem dois filhos já casados. Nós moramos num bairro muito antigo e tranquilo que fica bem perto do centro da cidade. Chama-se Santa Teresa. Sei que você deve estar se perguntando como consegui me casar se já sou casada aí em MG. Não vou mentir para você. O medo de ser encontrada pelo pai dos meus filhos foi tão grande naqueles anos terríveis, que mudei de nome e assumi outra identidade. Disse no cartório que nunca havia sido registrada e me registrei com  outro nome. Agora me chamo Joana Pires de Sanches.

            Quando penso em nossa gente, aí pelas bandas de Minas fico toda arrepiada de saudades e disparo a chorar. Lembro de nossas pescarias, das comidas da mamãe (que Deus a tenha!), das festas no Ribeirão, dos biscoitos de Vovó Luzia ... Ela ainda é viva? se for já deve ter mais de cem anos, não é mesmo? Lembro bem do seus vestidos longos e brancos, tão longos que varriam a poeira do caminho por onde passava.

            Vou me despedindo por aqui, na certeza de que em breve eu e meu novo marido iremos a minas buscar meus filhos. Um grande abraço para todos aí. Fiquem com Deus e abençoe os meus filhos por mim.

            Da irmã que roga a Deus por ti todos os dias, e que nunca te esquece.

             Josefina da Cruz, agora , Joana Pires de Sanches. "
  

Agora entendi porque às vezes acho alguns da família tão diferentes da maioria. É que na verdade são primos de mamãe e sobrinhos de Vovó. Ela me disse que essa foi a única notícia que a se teve na família da irmã que foi para longe ... 

7 comentários:

heloisa de mesquita inoue disse...

Creio que há muitos casos destes em varias familias... mesmo na minha há um caso parecido... muinha avó paterna não é filha e sim, neta do pai que a registrou. É que, as mulheres da nossa familia são de genio forte... e, quando minha bisavó estava gravida de minha avó, o marido saiu e foi se refastelar com as moças damas da região e voltou tarde para casa... quando ele chegou os dois brigaram e ela correu pegou uma espingarda que estava pendurada na parede e o ameaçou de morte, ele, saiu correndo e nunca mais voltou...

Lourdes disse...

Um caso comovente esse que a Anabela relata na sua crónica e que é semelhante a vários que conheço. Na aldeia da minha mãe, havia casos semelhantes em que eram as tias que criavam os sobrinhos, mas nenhuma das mães teve que mudar de nome.
beijinhos
Lourdes

✿ chica disse...

Puxa, acontecem coisas incríveis nas famílias. Imagino a surpresa! um beijo,tudo de bom,chica

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Que história interessante, Anabela! Coisas desse tipo aconteciam muito na aldeia onde nasci; as dificuldades eram muitas e tinham que procurar melhores dias noutras parabéns; os meus pais , quando eu era ainda adolescente, criaram 3 crianças pequeninas, pois os pais foram para o Canadá e não puderam levá-las; 3 ficaram em minha casa e os outros 3 com os avós. Mais tarde vieram buscá-los, isto com muito sofrimento para nós e para as crianças, principalmente para a mais pequenina que não conhecia os pais; pais eram os meus. Nunca se adaptou à " nova" família e quando cresceu saiu de casa. Continua no Canadá e eu nunca mais a vi. Traumas para a vida. Um beijinho, Anabela e um bom fim de semana
Emília

Maria Alice Marques disse...

linda historia não sei sé verdadeira só lhe digo que é uma história de amor com muita emoção e maravilhosa.
Bjos
Alice

msgteresa disse...

Oi,Anabela!
Minha querida amiga, me emocionei com esta estória tão humana e comovente. E imagino que deve ser verídica,né?
Sei que a vida é mesmo assim, e casos semelhantes acontecem em muitas famílias. Afinal, todos somos humanos e sujeitos às contradições da vida... Mas sabe, isso também vem demonstrar a qualidade de muitas pessoas,como a da tua avó, que corajosamente assumiu a educação de seus próprios sobrinhos e os amou como filhos verdadeiros... Uma mulher valente,forte e muito virtuosa! São pessoas maravilhosas assim que servem de exemplo e honram tantas famílias! Parabéns pra ela e para todas as mulheres valiosas e anônimas que cuidam e zelam com carinho de tantas crianças!
E parabéns pra você,pela linda e comovente estória de amor de hoje... Muito linda e que toca o nosso coração de mãe.

Beijo grande pra ti!!!
Teresa
("Se essa lua fosse minha")

Tina disse...

Oi Anabela

Que linda e triste história, é verdadeira?
bjs
Tina (MEU CANTINHO NA ROÇA)