Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Seguindo as tradições



- Cuidado prás galinha num cumê as verdura da horta, hein!
Exclamou Zefa ao fechar a cancela.
Ontem viemos para a casa de Tio Mundinho, Vô Mundinho ou Sô Mundinho? Cada um chama ele por um nome que não é seu, também nem sei qual é o seu nome de batismo, mas é certo que tem algum parentesco com Vovó. E é para cá que viemos todas as vezes que tem festa na cidade.
A carroça veio pesada. Muita carga de matula, roupa de cama e uma parafernália de coisas para a cozinha.
Vovó gosta de trazer de tudo um pouco. Disse que é para não explorar a boa vontade do dono da casa. Desconfio que há uma pitada de pãodurismo dele nessa história. Ele fica bem feliz quando chegamos e  ela prepara uns bons quitutes pelas mãos de Zefa.
Na carroça, além dos mantimentos vieram também os pequenos  com vovó. Ela deve ter debulhado uns cinco terços de rosário pelo caminho e nós só fizemos reclamar dores nas pernas pelas lombadas na estrada de terra vermelha e, contando com a sorte para não ficarmos embrenhados de carrapatos soltos entre o pó e o vento.
Até que na caminhada nem tudo foi doído. Gostamos da parada na travessia do Córrego Grande . Quando a carroça se distanciou então ... caímos n'água e nem os pitos de mamãe e nossas tias evitaram que chegássemos na cidade enlameados.
Viemos para a festa de Corpus Christ. Os tapetes são feitos à noite, depois que os homens chegam da labuta. Vovó sempre prefere vir na véspera para não perdemos os preparativos, que são até mais interessantes do que a ver a festa pronta.
Tio Mundinho não tem mulher nem filhos. Quando chegamos ele ficou bem contente e a casa passou a ser nossa. Zefa, mamãe e minhas tias deixaram tudo um brinco. E nós, aproveitamos para correr pela vizinhança em busca de novidades.
Quando a noite caiu todos se juntaram na praça. É tradição enfeitar as ruas por onde passará a procissão com o Santíssimo. 
Na casa de dona Cota ficam separados todos os anos o material que vai ser usado. As tintas desse ano foram nas cores vermelho, amarelo, branco, azul e verde. Os moldes das figuras bíblicas, flores e letras foram feitos pelo Prof. Dinaldo. Ele ensina Artes na escola velha e sempre que tem festa é chamado a conduzir os ornamentos.
A decoração com tapetes varou a madrugada e como não gosto de perder nenhum detalhe, coloquei toca e joguei um cobertor nas costas para não ser vencida pelo frio.
As senhorinhas daqui sempre fazem um agrado para quem trabalha na arrumação das ruas. Canjica, café com biscoito e chás bem quentes foram servidos de tempo em tempo até que tudo ficou pronto e fomos dormir.
Dormirmos muito tarde e acordamos logo no primeiro canto dos galos. Aqui tem muitos ... Vestimos a roupa de festa sob tremendas recomendações para não nos descompor. Tomamos café com broa de fubá e pronto. 
Ao sair pela porta da frente dei logo de cara com dona Serenita carregando a batina de padre Emílio. Branquinha!!! Com bordados dourados e vermelhos. Olhei para a praça e vi a maravilha que ficou o tapete. Sem dúvida um dia que promete, pensei.
Por alguns minutos estive observando a chegada do povo para a missa. Cada um mais elegante do que o outro. Os que são das irmandades vestem seus uniformes engomados e nenhuma criança se metendo a correr na poeira com risco de sujar a roupa. Tudo muito certinho, como deve ser nos dias de festa.
Vovó não foi à missa, nem as outras senhorinhas. Elas ficam em casa e enfeitam as janelas com colchas, toalhas, flores e muitas imagens de santos. As casas das ruas por onde passa a procissão ficam abertas para receber o Santíssimo.
Uma coisa me chamou a atenção esse ano: todas as senhorinhas ficam numa janela ou na porta de entrada da casa com o terço de "lágrimas de nossa senhora" na mão, véu sob os cabelos e chorando um choro calado, de um profundo sentimento que não consigo bem entender.
Fico pensando: será que quando eu for senhorinha conseguirei chorar desse jeito de minha janela?

4 comentários:

Imaginário disse...

Acatei a sugestão e vim. Gostei demais, confesso.

Você deve saber, mas eu quero dizer: você fala do fundo de Minas, do que de mais brasileiro pode haver.

E essa mocinha, que ainda não é "senhorinha", já choras assim, "um choro calado e profundo".

Minas é difícil demais de entender.

Abraço, com felicitações pelo belo texto.
Gilson.

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ disse...

Não sou mineira mas amei suas mineirices.

Digo que fico!


Beijo

Mundo do Sabor disse...

Adorei as histórias da sua infância.Que lindas, poéticas, engraçadas.Quanto deve ser gostoso, viver num lugar tranquilo, cercado de natureza,.com pessoas simples, com tradições de respeito, amor ao próximo,amizade.Ah me lembrei da minha infância, apesar de viver numa grande métropole, morei numa avenida de casas,onde tinha uma hortaque pertencia á um casal de portugueses,Dona Laurinda e Sr. João Lobo.Tinha um filho Sr. Manoel que casou com D. Cidália CArneiro.Eram muito amigos dos nossos, pais, não brincava com seus filhos,Maria de Fátima, José Inácio ,Maria Laurinda ,João Neto e Luciano, porque tinham muito mais idade que eu, eram adolescentes e adultos, mas minha irmã Rosana, tinha um pouco menos que a idade de Maria de Fátima e andavam sempre juntas.
Lá eu brincava no poço cheio de piabas, tinha muitas goiabeiras, mangueiras, pés de abacateiro, criávamos galinhas, patos,tenho muitas saudades deste tempo.A cidade grande não tem a poesia e a vida saudável e simples que necessitamos.Meu sonho é ir morar no campo.
Amei seus textos,li 3 de uma só vez, e vou continuar vindo aqui para saborear suas histórias.


Beijooos

Rosiane Moreira Silva Carvalho

Mundo do Sabor disse...

Adorei as histórias da sua infância.Que lindas, poéticas, engraçadas.Quanto deve ser gostoso, viver num lugar tranquilo, cercado de natureza,.com pessoas simples, com tradições de respeito, amor ao próximo,amizade.Ah me lembrei da minha infância, apesar de viver numa grande métropole, morei numa avenida de casas,onde tinha uma hortaque pertencia á um casal de portugueses,Dona Laurinda e Sr. João Lobo.Tinha um filho Sr. Manoel que casou com D. Cidália CArneiro.Eram muito amigos dos nossos, pais, não brincava com seus filhos,Maria de Fátima, José Inácio ,Maria Laurinda ,João Neto e Luciano, porque tinham muito mais idade que eu, eram adolescentes e adultos, mas minha irmã Rosana, tinha um pouco menos que a idade de Maria de Fátima e andavam sempre juntas.
Lá eu brincava no poço cheio de piabas, tinha muitas goiabeiras, mangueiras, pés de abacateiro, criávamos galinhas, patos,tenho muitas saudades deste tempo.A cidade grande não tem a poesia e a vida saudável e simples que necessitamos.Meu sonho é ir morar no campo.
Amei seus textos,li 3 de uma só vez, e vou continuar vindo aqui para saborear suas histórias.


Beijooos

Rosiane Moreira Silva Carvalho