Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Afinal, veio vendê ou tecê conversa?

Segui acompanhando as duas até Vovó. E, claro fiquei por ali com desculpa de arrumar as flores no vaso que estava em cima da mesa.
- Como vai vossa pessoa? Perguntou Sá Luzia.
- Vou bem graças a Deus. E a senhora?
- Ah! Vou indo como Deus quer.
- Trouxe biscoitos?
- E dos bons! Virei a fornada antes do galo cantá.
- De certo Sá Luzia. Bárbara! Leve a capanga com os biscoitos lá na cozinha e pede pra Zefa guardar enquanto eu acerto os cobres aqui com sua mãe, minha filha.
- Chica! antes de ocê contar os cobre, quero te fazer um alerta.
Vovó parou de tirar o dinheiro do bolso da casaca e olhou assustada:
- O que foi Sá Luzia? Sou toda ouvidos, pode falar.
-Chica! Tem gente miúda daqui dos seus andando lá pelas bandas do capuera do açude seco. Eu vi uns quatro... Dois minino, uma minina e um outro que não consegui vê direito purque correu pra trás do piquizêro quando me viu.
- Que coisa Sá Luzia! O que há de ter levado essa garotada sem juízo tão longe?! Pode deixar que vou tratar disso.
- De certo Chica. Só Tô te falano porque ocê sabe o que eu passei quando a bicha pegou Pureza por lá... Não vim fazê candonga, não! Deus que me perdoe! Inté tomei a comunhão na missa de hoje, antes de passá aqui.
Vovó bem sabia que havia um certo exagero naquilo, mas claro, iria nos dar castigo por termos saído sem permissão. Fizemos tudo direitinho para ninguém perceber e Sá Luzia estragou tudo... Agora não teremos mais tardes livres no campo de araçás!
Sá Luzia, como muita gente aqui da região, tem muita superstição. O ocorrido com Maria Pureza é tão antigo! Do tempo que Vovó ainda era menina, mas o povo daqui faz questão de manter a história viva e com isso sustentam uma superstição que prejudica os mais novos.
Pureza era uma das filhas de Sá Luzia. Contam que numa quinta-feira santa ela foi mandada pela mãe a buscar lenha para acender o fogo na sexta-feira da paixão.
Naquele tempo não se podia catar lenha nem fazer nada na sexta-feira da paixão, só mesmo acender o fogo para esquentar o almoço que era preparado no dia anterior.
Pureza pegou a corda, o facão e pano de rodia. Seguiu para capuera onde tem muito pau de lenha seco pelo chão. Arranjou um feixe bem grande, separou e aproveitou para apanhar uns araçás...
Entre uma planta e outra achou um pé bem carregadinho e foi logo enfiando a mão para separar os melhores por galhos. Nessa hora, uma cascavél lhe deu um bote e a moça caiu pouco distante do feixe de lenha.
Entendendo que a filha estava demorando por demais, Sá Luzia, que ainda nem usava manguara, seguiu para capuera em busca de Pureza. Não foi difícil encontrar o feixe de lenha amarrado quase à beira do caminho, mas doloroso por demais encontrar a filha caída e desfalecida. 
Tentou reanimá-la inutilmente e então, correu para buscar ajuda com os seus. No caminho, deu de encontro com Zé da Caixa e seus companheiros da banda e foi logo contando o ocorrido e pedindo ajuda. Os homens acharam que Pureza meia morta. Pelo roxo no braço, Zé da Caixa foi logo adiantando:
- Foi uma bicha! E tem que achá ...
- Valei-me minha Nossa Senhora! Num deixa essa peçonha matá minha Pureza... Ô Jesus, pelo sangue de Cristo!
Os homens deram uma vasculhada nos arredores e logo viram a cobra enroscada debaixo do pé de araçá.
- Olha ela ali! Mostrou Tião Tramela.
Ele pegou um pau e apertou a cabeça da cobra num golpe certeiro.
Aos prantos de Sá Luzia, levaram a moça para casa. Quando entraram e colocaram o corpo em cima da mesa foi aquela gritaria...
Sá Tônica, avó de Pureza, sabia simpatia para curar veneno de cobra. Mandou trazer cachaça e uma faca bem quente. Jogou meio copo de cachaça na ferida e rasgou a pele. Tomou uma dose e chupou o sangue já engroçado e seguiu cuspindo. Depois pediu o guizo da cobra para torrar e fazer um pó que jogaria sobre a ferida.
Nessa hora, lembraram que a cobra morta ficou debaixo do pé de araçá. Logo Tião Tramela ofereceu-se para buscar o guizo. Foi num pé e voltou no outro, porém ... a cobra tinha desaparecido. Todos ficaram desesperados e como o tempo não espera um milagre acontecer, mesmo a poder de reza forte durante toda a noite, a moça amanheceu morta.
Desde então, as pessoas passaram a ter medo de andar naquela capuera. Dizem que a cobra não morreu e está escondida à espera de quem a feriu, para picar... e como cobra não diferencia gente, na dúvida acham que o melhor é não andar por lá, nem mexer nos araçás da cobra. Pode tamanha besteira?
Vendo Sá Luzia tecê conversa assim com Vovó, fiquei com muita raiva, mas também com muita pena do sofrimento e das bobagens  em que ela acredita. 

5 comentários:

Imaginário disse...

Ah, eu sabia: entre um negócio e outro, muito ponto de prosa. Viajei, lendo, sem sair do lugar... Fiquei maginano...
Parabéns.
Bom domingo.
Gilson.

Sônia Regina disse...

Tarde cumadi, mais que conto dus baum! Amei seu Blog, neste geitin meiu simpres de viver a vida e iscuitá esses causos de baum! Deus bençoe ocê cumadi Anabela!!! bjss de paz!!! Oh coisa boa sô!!!

Zilani Célia disse...

OI ANABELA!
DÁ VONTADE MESMO DE COMENTAR ASSIM,
MAS, JÁ DISSERAM TUDO.
ADOREI LER ESTA HISTÓRIA, É UM RETORNO NO TEMPO.
ABRÇS

zilanicelia.blogspot.com.br/
Click AQUI

msgteresa disse...

Oi,Ananbela!
Fiquei daqui imaginando a cena toda, e sei o quanto as supertições habitam a alma de tanta gente simples do povo...E estória de cobra,então... É prato cheio,né? (Rs...)
Minha sogra conta até hoje, uma estória de quando ela morava na roça, em que uma cobra enorme e "muito da malvada" foi enterrada num certo lugar e por isso, lá só cresce moita de espinho grosso e vespeiro do brabo... Dizem que foi tudo provocado pelo veneno e pela "maldade" da terrível serpente!
Então, manda um beijo pra "vovó",e diz pra ela que eu me encantei "por demais" com mais esta estória de cobra!
Beijos pro "cês"!!!
Teresa

Toninhobira disse...

Gosto destes contos minha amiga, que eram tão frequentes na Minas que vivi a minha infancia.Eles eram uma maneira de frear os moleques, implantando o medo, mas tinhamos muitas supertições na alimentação,que ainda hoje me assusto, como tomar leite e comer manga, ler depois da refeição, comer milho com manga e etc.
Belas e medrosas lembranças.
Meu abraço.