Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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domingo, 30 de setembro de 2012

Dona Conceição Coitchada

Hoje me lembrei de dona "Conceição Coitchada", vizinha de Vovó por muitos anos. Morava no terreno ao lado e como as casas foram construídas bem perto da cerca, nós e os dela nos víamos diariamente.
Era uma senhora bem idosa. Usava uns vestidos de tecido de algodão com estampas bem discretas, todos com mangas três quartos, saia franzida e comprida até a altura dos tornozelos. Por cima do vestido trazia sempre um avental de brim em tom escuro. Na cabeça  um lenço com estampas azuis e brancas amarrado atrás das orelhas. 
Não tinha vaidade. Nunca a vi de brincos ou qualquer outro acessório, muito menos com aparência de ter usado cosméticos. Era muito simples e tímida. Tinha a fala mansa, um pouco rouca e a tudo que ouvia as pessoas falarem respondia: coitchada!
Morava numa casa caiada e com janelas de madeira em peça única, que se fechavam por uma tremela..
Um telhado de quatro águas bem velho cobria a morada. Algumas telhas já haviam ficado pretas de fumaça. A madeira só resistia ao peso das telhas porque era daquelas escolhidas a dedo no mato. O piso de vermelhão parecia nunca ter tido contato com cera. Os móveis além de poucos, estavam em estado de dar dó.
Viúva, morava com a filha Maria, noiva do irmão de nossa tia torta, Neném, casada com tio teresão, que além de trabalhar fora acabava assumindo grande parte do serviço doméstico, tarefa da qual a esposa não era fã. Maria era noiva desse homem, cujo o nome me falha a memória, há uns 20 anos... Diziam que ele não se casava porque era cigano.
Além de Maria, dona conceição tinha também um filho solteiro em casa, mas esse trabalhava durante o dia e no final da jornada ia direto para o butiquim, principalmente para a venda do João Bica. De lá subia o caminho de casa tropeçando nas pernas.
Uma coisa boa era o quintal de dona Conceição. Quantas frutas! E algumas bem ao lado da cerca e com galhos para o lado do terreno de Vovó. Não que faltessem frutas no nosso quintal, é que as do quintal da vizinha parecia-nos melhores. Ah! Não posso esquecer da rama de chuchu que subia na cerca e produzia até na época de seca.
Bom, hoje me lembrei de dona Conceição que já passou dessa para melhor. Faz um bom tempo. Seu golpe maior foi a morte do filho Quinzinho, que de tanto beber acabou morrendo de forma trágica.
Certo dia,  foi beber num butiquim do lado de lá da rodovia. Ao voltar para casa  foi surpreendido por um carro que o mandou para cima como se fosse uma pipa ao vento. 
A partir daí ela  ficou a cada dia mais triste, adoeceu e se foi. Coitchada!
Já sei, todos querem saber como ficou Maria!? Digo que nem assim, ficando sozinha, com o cigano ela conseguiu se casar. Está bem viva, morando na mesma casa que continua resistindo ao tempo diante do mesmo quintal. 

4 comentários:

Maria Célia disse...

Olá Anabela
Que belo caso, conto, história, sei lá, não importa a denominação, mas sim, que achei muito interessante.
Você escreve muito bem.
Beijo

Toninhobira disse...

Muito boa descrição pude recriar as imagens.
O fim é fantastico Ana.
Abraços.

Mundo do Sabor disse...

Anabela, coithada da Maria, emsmo assim ficou solteira!
Aqui no interior do Estado ,é comum as pessoas, falarem desta forma: coitchada, doidha.....

Beijooos

# ESPAÇO LADY ELAINE # disse...

OI..MULHER ABENÇOADA...

Parabéns seus mimos são lindos.
Te seguindo, espero ser aprovada,
para retornar sempre no seu espaço.
Que é muito criativo e encantador.
Gostei do final.
Bom inicio de semana...BEIJOS !!!