Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Nhô Bento

Fonte: chinelo.

Vovó muitas vezes viaja para visitar uns parentes que ela tem lá na Laje dos Bentos. Eles são uma gente muita engraçada. Moram numa casa de fazenda velha e não se importam se ela está caindo aos pedaços. Acham que a vida é assim mesmo e o melhor é guardar o dinheiro debaixo do colchão para o caso de alguma necessidade.
Ela chegou de lá ontem a tarde e hoje de manhã já nos contou uma das aventuras do Nhô. Ele é seu irmão mais velho, já está com as vistas cansadas e anda contando os passos.  Disse que nos últimos tempos está com mania de economizar lenha e controla a quantidade de comida que a mulher faz.
Vovó ficou sabendo que no mês passado ele viajou numa romaria para pagar uma promessa. Dizem que lá pelas tantas da madrugada ele queria urinar e pediu ao motorista para parar o ônibus na estrada.
Nhô desceu do carro meio sonolento e nem percebeu que estava com calçado em apenas um dos pés. Fez suas necessidades e voltou para o lugar. Quando o motorista arrancou o ônibus, Nhô começou a gritar:
- Pára aí homi! Minha precata ficou lá no apeio ...
Voltaram para trás e ao se aproximarem do local avistaram um andarilho com uma precata na mão. Nhô foi logo dizendo:
- Se ôce acha que vai ficar com minha precata, tá muito engando. Passa ela pra cá!
O homem que nada entendeu, saiu em disparada. Assustado, o motorista resolveu que seguiria viagem sem Nhô recuperar seu calçado. 
Quando o dia amanheceu e ao destino se chegou, todos desceram e seguiram para os festejos.
 Nhô, muito contrariado, decidiu comprar calçados novos após a tentativa de andar descalço por algumas horas.  
O dia se foi e no retorno outra viagem noite a dentro. Pela manhã chegaram em casa. Depois de esvaziado o ônibus o motorista resolveu fazer uma revista geral para ver se os passageiros tinham esquecido algum pertence. E ... lá estava ela! Bem debaixo do banco, presa no pedal de descanso para os pés. A precata de Nhô Bento!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dia de eleição


O sol ainda nem mostrava os primeiros raios e já podia-se ouvir vozes de quem passava na estrada rumo à cidade. Hoje é dia de festa, sem música e comida gostosa, sem convidados e com muitos obrigados. Vem gente de toda a redondeza, alguns insatisfeitos, outros orgulhosos, esbanjando vaidade no cheiro do perfume, na  bela roupa de domingo... É dia de rever os parentes, de encontrar os amigos, de saber da vida das comadres e dos compadres, de contar as novidades lá roça e de conhecer as mudanças ocorridas na cidade.
Os adultos aqui da chácara  levantaram-se bem cedo e foram se juntar ao povo da cidade. É dia de eleição. Vão escolher o novo prefeito e uma meia dúzia de vereadores para tomar conta da cidade. Tem gente que diz que político é tudo farinha do mesmo saco, eu não sei se é bem assim, porque falam isso mas vivem defendendo cada um o seu candidato.
Vovó, pela idade, já não precisa mais votar, porém faz questão de comparecer e se orgulha ao contar que deu seu voto para os Lana. Lana Avô é candidato a prefeito; Lana Filho e Lana Neto querem ser vereadores de novo!..   
A novidade desse ano é uma candidata apoiada pelos Faria, uma tal de Donana Pimenta, que  o povo daqui não conhece, mas que deve ser eleita por ter apoio dos Faria, gente de confiança para a  maioria da população.
Passamos a manhã no portão da chácara observando o movimento.Às vezes alguém parava e perguntava por vovó, como ela não estava nos pediam um  copo d’água e seguiam em frente. Até que apareceu tia Ana, nossa tia avó, com sua saia estampada e bem rodada marcando a cintura. Ela sempre é a primeira na fila para votar. Gosta de ir cedo e depois sai visitando os parentes aqui e ali, sempre contando casos e fazendo a gente rir.
Quando ela se esquece de um trecho dos casos, fica toda enrolada, dá uma gargalhada e diz assim:
- ... ah! É o cumé que chama!
E com a chegada dela entramos para dentro de casa, porque ela ia esperar por vovó e pelo almoço que Zefa estava preparando para nós.

sábado, 22 de outubro de 2011

Mamão afogadinho com carne cozida


Hoje o dia amanheceu chuvoso e bastante frio. Claro! Vovó não deixaria de preparar uma de suas receitas que nos ajuda a esquentar o corpo e espantar a friagem que gera os desgastantes resfriados fáceis de surgirem nesses dias de temperaturas inconstantes.
Logo cedo, foi até o pomar e trouxe uns mamões bem verdinhos. O prato do dia vai ser mamão afogadinho com carne cozida. Que delícia! Acompanhado de angu bem cremoso, feito com fubá de moinho d'água, feijão e arroz bem temperadinhos. Comida muito simples, mas quando feita com amor vira um manjar ...
Esse prato embora comum aqui em Minas, atrai muita gente sabida para o almoço na casa da vovó, por isso ela cozinha uma porção generosa. 
Quem chegou de mansinho e foi ficando , foi o dona Neném quitandeira. Ela vende umas quitandas muito gostosas todos os sábados, lá no caminho da Mina do Capão Bonito.
Sempre passa por aqui na volta para casa. Hoje estava muito molhada e Zefa emprestou roupas secas para ela. A conversa foi se prolongando até sair o almoço. Coitada! Mora sozinha com uma neta que de tão atrapalhada já não sai de casa. Por isso, tem que vender suas quitandas  para sustentar a menina. Está tão velhinha com os cabelos branquinhos escondidos debaixo daquele lenço estampado que usa na cabeça e ainda tem que trabalhar tanto assim. O pai da menina morreu de bebedeira quando ela ainda era criança e a mãe, que é sua filha, morreu no parto. A pobrezinha só tem a avó e dona Neném vive preocupada com o destino da menina. 

domingo, 2 de outubro de 2011

Dona Tatarabisavó Remunda


Imagem bolosciabyanarosacosta
 
 Hoje foi um dia daqueles que em que a casa ficou vazia. Logo cedo, Tia Bia passou por aqui  e levou Vovó para a chácara de Dona Remunda. Ela está completando cem anos! Tem muitos netos, bisnetos e tataranetos. Tia Bia é casada com um neto de Dona Raimunda e vai ajudar na preparação do almoço festivo, por isso foram para lá bem cedo.
Vovó foi  se juntar às outras comadres. Vai ser um dia agitado, onde de tudo um pouco todas vão contar algum segredo, e eu daqui de longe não vou ficar sabendo de nada... A chácara é muito longe e não teve como irmos todos pra lá .
Todos os anos ela comemora o aniversário, mas este é especial, porque comemora um século de vida.  Dizem que mandaram até anunciar na rádio da capital! Imagino como deve estar cheio de gente por lá. Todos que ficarem sabendo vão se sentir convidados e passarão para fazer uma boquinha...
Com tantos anos de vida, sempre alegre, vaidosa e cheia de vida, Dona Remunda é uma matriarca de dar inveja a muitas jovens da região. Durante toda a sua vida morou lá Recanto das Sempre Vivas. O terreno foi herança de um negro cativo que o havia adquirido como prêmio por ter salvado seu senhor das garras de uns cobradores de dívida que  viviam perseguindo o homem em todo lugar.
E assim, após o cativeiro, seus descendentes ficaram habitando o lugar e hoje Dona Remunda é a guardiã não só dos documentos de posse, mas também dos segredos da família.
Sei que essas festas de lá, assim como as que se fazem aqui, são muito boas para se abastar de doces e comidas gostosas, e também para se ver gente. Gente de todas as partes, que a gente observa e depois sai por ai comentando, assim como eles comentam sobre nós...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Tia Maria


E assim mais um dia começou...
Eram pouco mais de cinco e Zefa já coava o café. Vovó estava acordada e apoiada no travesseiro sob a cabeceira da cama, recitava o terço em baixo tom pedindo, a Deus proteção para o dia que se iniciava.
O sol  reluzia na janela. É primavera. Os dias agora são mais longos e alegres. Muito sol, flores e pássaros de galho em galho entoam seus cantos.
De repente ouvimos o barulho do portão de entrada se abrindo. Quem poderia ser naquela hora?
Passos leves e um toc-toc na porta ... pronto! Num instante o barulho dos chinelos de Zefa anunciava que havia dado a volta ao redor da casa para atender a porta. Ela bem sabe que abrir a porta da casa nas primeiras horas manhã é coisa que atrapalha quem está dormindo.
- Bom dia Zefa! Esse povo ainda tá durmindo?
Pela fala era Tia Maria. Ela sempre faz isso! Levanta de madrugada e sai para visitar os parentes. Na verdade, nem sei se ela chega a dormir. E se dorme, deve deitar junto com as galinhas, nas primeiras horas do anoitecer!
Foi entrando casa a dentro e direto no quarto da Vovó. Logo falando aquelas coisas que todo mundo sabe que na verdade é para dar um pito, fazer agente sentir vergonha.
Vovó fica muito brava com o jeito dela, mas não consegue demonstrar na hora. Tia Maria é bem mais velha do ela. É a irmã mais velha do meu falecido avô. Cheia de manias e muito, mais muito sistemática. Fica com raiva por qualquer coisa, então, os mais velhos acham que o melhor mesmo é relevar o que ela diz ou faz.
Depois de percorrer todos os quartos e ficar falando que não era preciso levantar por causa dela, seguiu para a cozinha e sentou-se à mesa para tomar o café e prosear. Perguntou a Zefa sobre tudo e todos. Gosta de ter o controle sobre a vida dos parentes.
Aos poucos fomos nos levantando e em pouco tempo todos já estávamos na cozinha escutando suas novidades.
Depois de dar uma volta no quintal, quis algumas mudas de flores do jardim. Sempre leva as mesmas  e não sei porque elas nunca pegam...
De tanto andar pelo quintal, pisou em falso e um de seus chinelos arrebentou a correia. Pensamos que teríamos de emprestá-la um calçado, mas de repente ela abriu a sacola e tirou lá de dentro uma outra sacola com uma bolsinha de tecido estampado. Abriu-a e pegou uma agulha bem grossa e um pedaço de barbante. Ajeitou o barbante na agulha e costurou a correia do chinelo...
Então disse:
- Já são mais de 9 hora e eu tenho que i imbora purque tá ficano tardi!
Despediu de todos, e embora vovó tenha feito o convite para o almoço, ela preferiu ir embora, pois seu dia já estava ganho e era hora de se recolher e descansar.  

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A morte do juiz de Capão Bonito



Chegou correndo e assustado. Seus olhos arregalados não escondiam o pavor que estava sentido. Todos ficamos quietos, calados, olhando fixamente para aquele rosto desfigurado, a espera de uma explicação. Ele não conseguia falar. Estava pálido e suava frio. Foi então que Zefa correu até a cozinha e voltou com com um copo d'água para que ele bebesse. Pegou-o pela mão e o acomodou no banquinho debaixo da janela. Tremia ... aos poucos começou a murmurar umas palavras, mas ninguém conseguiu entender nada.

- O que está acontecendo menino? Perguntou Vovó.
- Morreu alguém? Viu assombração? Continuou perguntando.

Nesse momento fez uma sequência de " em nome do pai ". Todos ficamos olhando assutados com a situação de desespero do primo Jorge. Afinal, ele saiu cedo para jogar bola com uns amigos e volta desse jeito!?

Depois da fase aguda dessa crise de pânico, Jorge contou -nos o que havia acontecido e nem acreditei que pudesse ser verdade uma coisa dessas, mas em todo caso, vou ficar bem caladinha para não dizerem que estou abusando da fraqueza alheia. Assim que puder vou perguntar tudinho ao padre João de Deus.

Jorge disse que quando chegou lá no Capão Bonito encontrou o campo vazio. Caminhou até as casas mais próximas para ver se conseguia ter notícias dos amigos que jogam no time. Tinham marcado o jogo para as 10 horas, faltavam 10 minutos e o campo estava vazio. 

No caminho encontrou Sô Lião, um velho que anda todo o vilarejo apoiado na bengala e que sabe de toda aquela gente do lugar. Foi informado da morte do juiz que ia apitar o jogo. Então deduziu que todos estavam no velório e rumou para o lugar indicado. Lá estavam todos os jogadores, os moradores do lugar e padre João de Deus  que para lá foi afim de encomendar a alma do morto.

Enquanto o padre rezava, as filhas de Maria entoavam cantigos funebres, outros sussuravam a reza do terço e uma grande maioria lamentava aquela morte fazendo o tradicional julgamento das boas e más obras praticadas por aquele homem em vida. Uma espécie de julgamento de Osíris.

O padre rezava e salpicava água benta no corpo estendido na velha padiola. Caixão naquelas bandas é para poucos. Começou a benção pelos pés, que alguns, depois do ocorrido, juram terem visto se mexer quando gotas de água fria neles foram salpicadas pelo sacerdote. E foi distribuindo gotas de água benta corpo acima, até que ... quando chegou a vez do rosto deu a brocha para o sacristão molhar enquanto fazia o sinal da cruz sob a cabeça do defunto.

O sacristão, muito distraído, não tirou o excesso d'água da brocha e quando o padre salpicou a água ... deu um banho de água fria no rosto do morto que se levantou na hora, pois não estava morto, estava desfalecido.

Num instante, saiu o sacristão correndo porta a fora e atrás dele metade dos presentes naquele velório. A outra metade saiu pela janela tal como fez o padre. Na confusão, o morto também se assustou e saiu porta a fora correndo, não sabia  ele, dele mesmo ... espalhou gente para todos os cantos. E foi dessa maneira que primo Jorge chegou aqui na na casa da Vovó com jeito de quem havia visto assombração.
E não é que ele viu!?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Um segredo de família

Há coisas que nem imaginamos encontrar pelo caminho. Como a carta que vi vovó tirar do baú. Ela guarda uns papeis antigos dentro de uma caixinha de papelão, que na verdade é uma antiga caixa de sabonetes. Muito bonitinha, velha, mas tão limpinha que dá gosto de ver.

Vovó ficou um bom tempo lendo e relendo a carta. Até que não resisti e me aproximei. Pensei que ela iria me mandar sair, mas para a minha surpresa ela me deu a carta para ler. Nem acreditei quando olhei seu braço estendido com a carta na mão, esperando eu pegá-la para ler.

No primeiro momento me chamou a atenção a caligrafia de aparência muito antiga. Antiga e toda certinha! Um capricho só! Depois fui me prendendo à leitura que trazia o relato de um segredo de família que até então eu desconhecia.

" Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1955.

             Minha querida irmã,

            Escrevo-lhe com o coração aflito, pois bem sabes que há dois anos estou sem saber notícias de minhas crianças que contigo deixei enquanto vim tentar refazer minha vida aqui na Capital do país. Espero em Deus que essa carta encontrem todos gozando de muita paz e saúde.

           Sei que somente Deus poderá lhe recompensar pela bondade que tens demonstrado cuidando e criando dos meus filhos. Efigênio, Lia, Cecília e Marília. Quatro pedaços de mim que por força do destino tive que deixar para trás. Fico imaginando como devem estar crescidos e bonitos. Sim, pois tenho confiança nos seus cuidados de mãe para com eles. Ontem foi aniversário de Lia, acho que agora você vai poder deixá-la frequentar a escola  e o catecismo. Ela já tem sete anos, meu Deus!!! Que saudades!

           Sei que você deve estar imaginando como tenho me virado por aqui. Digo-lhe que não se preocupe comigo, já consegui um trabalho honesto e tenho um bom ordenado, estou até pensando em enviar um pouco de dinheiro todo início de mês para ajudar nas despesas com as crianças. Sei que você não precisa disso, mas faço questão de ajudar e assim que puder darei um jeito de buscá-los para viverem comigo.

           Uma novidade que tenho é que me casei novamente. Isso mesmo! Meu novo marido é viúvo e tem dois filhos já casados. Nós moramos num bairro muito antigo e tranquilo que fica bem perto do centro da cidade. Chama-se Santa Teresa. Sei que você deve estar se perguntando como consegui me casar se já sou casada aí em MG. Não vou mentir para você. O medo de ser encontrada pelo pai dos meus filhos foi tão grande naqueles anos terríveis, que mudei de nome e assumi outra identidade. Disse no cartório que nunca havia sido registrada e me registrei com  outro nome. Agora me chamo Joana Pires de Sanches.

            Quando penso em nossa gente, aí pelas bandas de Minas fico toda arrepiada de saudades e disparo a chorar. Lembro de nossas pescarias, das comidas da mamãe (que Deus a tenha!), das festas no Ribeirão, dos biscoitos de Vovó Luzia ... Ela ainda é viva? se for já deve ter mais de cem anos, não é mesmo? Lembro bem do seus vestidos longos e brancos, tão longos que varriam a poeira do caminho por onde passava.

            Vou me despedindo por aqui, na certeza de que em breve eu e meu novo marido iremos a minas buscar meus filhos. Um grande abraço para todos aí. Fiquem com Deus e abençoe os meus filhos por mim.

            Da irmã que roga a Deus por ti todos os dias, e que nunca te esquece.

             Josefina da Cruz, agora , Joana Pires de Sanches. "
  

Agora entendi porque às vezes acho alguns da família tão diferentes da maioria. É que na verdade são primos de mamãe e sobrinhos de Vovó. Ela me disse que essa foi a única notícia que a se teve na família da irmã que foi para longe ...